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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Quase em 2015, Donovan - Atlantis

Um tema dos anos 60.

 

Com os votos de Feliz 2015 para todos os leitores, seguidores e curiosos do nosso blogue. Alimentemos a nossa alma, não esqueçamos aqueles que sofrem e os desfavorecidos, saibamos dizer não ao egocentrismo e à pressão mal intencionada exercida pelas chefias. Digamos NÃO ao preconceito, racismo, xenofofia, homofobia, violência, destruição insustentável dos ecossistemas, poluição, corrupção, diferentes formas de assédio,...

 

Nós vamos continuar a usar palavras, doces ou amargas, a três mãos e a três estilos.

Aceitem o nosso abraço.

 

A equipa do A Três Mãos.




Delícias da Noite

Divulgar boa poesia, desta feita ousada e bem escrita é uma das etapas do inovador, A Três Mãos.

Ronaldo Sérgio, brasileiro, escreveu, no dia 21 deste mês, Delícias da Noite, no seu blogue Rancho das Crônicas. A visitar. 

 

 

Foto de Nicola de Luigi em http://nichotina.tumblr.com/

 Fotografia de Nicola de Luigi

 

 

Meu prazer é descascar seus desejos,
na sua frente, todos os dias,
sem pudor,
vivendo o horror do gozo.
Conhecer-te por dentro,
caminhando pelo seu corpo,
até o argasmo abrir-te toda,
e sentir minhas partes desaparecerem
entre a maciez e a doçura
de sua carne e de seus beijos.

 

 

Perder-se no toque
das mãos que caminham
sem saber por onde vão
quando vão exatamente
para onde têm que ir.
Sentir a sua pubis
excitando-te
fazendo-a pular sobre mim
fazendo-me jogar-te
de volta na cama
e ferir-te com minha bimba.

 

 

Adoro preencher seus vácuos
percorrer seus trechos devagar,
com os lábios, a língua, as mãos.
Alcançar sua delícia e fazer
e fazer meu falo tocar a pele dela
da sua márcida e fechada vulva,
entrando e quase saindo
e de novo e de novo,
tocando e suspirando
deixa-te derramar-se de prazer
molhada e com os olhos cheios d’água.

 

 

E neste deleite
esquivar-se de tudo
das coisas
de nós mesmos
deixando o orgasmo escorrer
escorrer pelo mundo todo.

400 palavras - VIII

Ajeitou a gravata quando pressentiu que a porta se preparava para ser aberta. Um homem corpulento, de tez pálida penetrou na sala estendendo a mão para a visita. Não obstante o aspecto volumoso parecia afável.

- Engenheiro Lídio Messias? Como está? – Cumprimentou.

Lídio retribuiu:

- Muito bem! Mas trate-me pelo meu nome, simplesmente.

O anfitrião sorriu com a franqueza e acrescentou:

- Claro. Faça o favor de se sentar.

E continuou:

- Veio responder ao anúncio?

- Exactamente!

- Como compreende há uma série de questões que gostaria de ver esclarecidas…

- Com todo o gosto!

O entrevistador recostou-se na cadeira e desbobinou um ror de perguntas. Ao fim de quase uma hora declarou:

- Creio que preenche todos os nossos requisitos. Sabe do negócio, tem ideias precisas do que necessitamos… Isso é muito bom! Já agora posso só colocar uma questão do foro mais pessoal?

- Obviamente…

- Quais são neste momento os seus sonhos, os seus desejos?

Resposta contínua:

- Não tenho sonhos…

- Como não?

- É como lhe disse… Não são os sonhos que me fazem mover.

- Então como chegou aqui? Como se licenciou?

- Desde cedo tive consciência que os sonhos só me atrapalhavam. Por isso abdiquei deles e apenas dei valor à lógica da vida.

Atrapalhado por aquela postura e entrevistador sentiu-se atemorizado. No entanto foi acrescentando:

- Nunca desejou um brinquedo, ter uma namorada, comprar um carro?

- Nunca! Sinto que só devo ter aquilo que posso. Os sonhos só acarretam desilusão, ansiedade e obviamente depressão. Sou pragmático e realista. O curso que frequentei não correspondeu a um desejo, mas a um estudo lógico pois rapidamente percebi que esta seria a profissão com maior empregabilidade.

- Mas acredite, que o melhor do sonho não está na conquista final… Apenas no caminho até lá!

- Acredito que assim seja. Mas prefiro não sonhar… Nem de noite!

- Se ninguém sonhasse viveríamos muito longe desta realidade. O sonho é que faz andar o mundo…

- Fez. Não faz mais! Hoje vivemos num mundo adepto de certezas e pragmatismos. Ninguém mais quer saber se o sonho comanda a vida… Sonhar com algo, como forma de vida, é somente uma mera utopia… ultrapassada.

- Nunca vi o mundo por esse prisma… sinceramente. E nessa sua filosofia onde cabe a felicidade?

A pergunta tinha rasteira. A resposta dada esquivou-se a ela:

- O que é a felicidade?

Luto de mulher

Uma história real.

Uma das páginas do livro da minha vida, como professor e diretor de turma, sem referências específicas e concretas, por forma a proteger a identidade dos ainda, menores.

 

Choro-te de Paulo Vasco

 "Choro-te" de Paulo Vasco Pereira

 

Uma vida, um amor e uma história cessaram. Desconheço o futuro do casal que apenas separado foi na urna e nos túmulos. No seu futuro, a pretensão de uma união eterna, formalizada nos papéis e rituais da igreja que terminam numa festa, que dizem inesquecível: o casamento. Este, não passou de um sonho, à semelhança de tantos outros: impossível e trágico. 

 

A vida, essa mão de incógnitas que nos mantém erguidos por caminhos cujos objectivos finais desconhecemos, presenteia-nos com alegrias e tristezas, quantas vezes num ápice, nos momentos mais inesperados e inauditos. Eles, na “flor da idade”, foram presenteados com a morte trágica, nua, cruel…Os seus órgãos esmagados, em pedaços, naquele acidente, naquele dia longo, aparentemente calmo, suave e doce, até ao momento da fusão das almas. No outro plano, numa outra dimensão, a real, o sofrimento e a eterna saudade. Projectos, idílios e o forte pronúncio daquele grito que se fez ouvir, no momento de dar a saber um final inesperado, num mar de sonhos que dizima quem ama e gerou. Agora, nos momentos de dor, estes em vão e sem forças procuram resistir. Dificilmente compreendem que apenas o tempo pode diminuir a saudade e a dor; se possível for.

 

Já eu, às palavras disse “Não”.

Em risco, agi de acordo com a minha consciência. E não me arrependo, graças a Deus!

 

 Paulo Vasco Pereira, Cinfães, 12/06/2010

O mutismo da despedida

Aqui não vos deixo um conto mas palavras que relatam um período da minha vida. Encontrei-as hoje, por mero acaso, ao importar os conteúdos de um blogue que tinha no Livejournal para o meu Sapo

Publicação escrita em 16 de novembro de 2011, atormentado pela neve que de Cinfães não me deixava sair, para assim passar o fim de semana com os meus familiares e melhor me inteirar do então "desconhecido". Republiquei-o, em 25 de junho deste ano, quando o meu pai foi internado para efetuar o autotransplante à medula óssea, sem saber, embora o receasse, que início se dava a um diferente mutismo da despedida.

 Verifique se consegue identificar, caso existam, valores natalícios, no seguinte desabafo, escrito em diferente época do ano.

 

 

 

Não raramente, pensei que as despedidas pudessem acontecer dentro desta dimensão planetária. Considerava impreterível a inércia de um corpo e a viagem de uma alma entre mundos opostos, dissipados nas verborreias de uma ou outra crença capaz de em nós soltar o abraço da ténue confiança, tão relevante para a cobardia. Afinal, existem despedidas sem adeus. Despedidas encerradas num mutismo elevado ao sentido da dor. Destino ou consequência fisiológica, assim foi a sua.Neste outono, num dia trivial, solarengo e chuvoso como tantos outros, fez-se silêncio nas percepções do mundo real. Sem aparentar qualquer sofrimento, com o suporte do chão rochoso, eis que aquele ladrar da cadela serra da estrela sinalizou a sua localização. Caída estava, não naquele lugar, não naquele momento… Ao estender a mão ao genro, para a ajudar a levantar-se, a primeira referência: queria uma mão para com ela atravessar o rio que à sua frente corria . Um rio da sua infância, da sua terra natal. Desde então, sucessivas e constantes abordagens ao passado.O regresso não mais se fará.
Quando a reencontrar, reconhecer-me-à?… 

 

Dedicado à minha avó, que agora sei, doente de Alzheimer

 

 

Rogai por nós por Paulo Vasco Pereira

 

 

Um Natal longe da terra natal

 

Carlos e Filipa, dois jovens adultos que tiveram necessidade de emigrar, encontraram a sua oportunidade em Barcelona, há cerca de três meses. Festejariam o Natal longe da família, pela primeira vez. A poucos dias da data, decidiram visitar o Parc Güell; passear era a sua tentativa de atenuar as saudades que já começavam a sentir.

O parque ora brilhava à luz de alguns raios de sol, ora se tornava melancólico sob as nuvens e o rapaz teve que aumentar a luminosidade do ecrã do seu smartphone, enquanto caminhava alguns passos atrás da namorada.

- Carlos, vê o supositório ali ao fundo! – Referia-se ao edifício alongado e prateado, que pertence à Companhia das Águas e é bem visível, se olharmos para a esquerda, na direção do mar.

O rapaz, com quase trinta anos, acenou com a cabeça, emitindo um “hum, hum” aparentemente desinteressado.

 - Vá, larga isso! – Filipa sacou-lhe o telemóvel e escondeu-o na sua mala, abraçando de seguida a cintura de Carlos.

Ele retribuiu o abraço, enquanto observava o caminho à esquerda, atento a todas as pessoas que passavam. Finalmente, avistou os dois homens que esperava - um corpulento e outro mais esguio -, com as caixas negras e compridas aos ombros.

- Filipa… - A voz de Carlos soou fraca e medrosa.

- Não te vou devolver o telemóvel, evitas de pedir!  

- Não é isso… - Voltou a olhar na direção dos homens, inquieto. – Sabes que adoro viver contigo e que valorizo mesmo muito o teu apoio nesta nova fase da nossa vida. Sei que te custa passar o Natal longe dos teus pais. Mas agora também nós somos uma família.

O rapaz acarinhou o ventre convexo da namorada, prenúncio de uma gravidez de cinco meses, e tirou a pequena caixa do seu bolso, ansioso.

- Sabes que não podemos continuar naquele apartamento. É minúsculo…. – Os homens, já mais perto do casal, abriram os estojos dos seus violinos e pouco depois, particularmente familiar para Filipa, esta era a melodia que soava no parque:

 

  

Também Carlos abriu a sua pequena caixa. Esta não continha um instrumento musical, mas sim uma chave, que brilhava sobre o veludo vermelho.

- Quero que sejas minha esposa numa nova casa…

A rapariga pegou na chave com que abriria a porta do lar de ambos e abraçou o noivo, enquanto soltava incontáveis lágrimas de felicidade, talvez exacerbadas pelas hormonas da gravidez.

- Que rico Pai Natal me saíste, Amor!

- Mas foi por pouco que não me estragaste o plano. Estava a enviar mensagens aos músicos para que viessem ter connosco, quando me roubaste o telemóvel…

 

Longe da família, mas sentindo-se em casa, abraçaram-se ao som dos violinos.

  

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