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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Delícias da Noite

Divulgar boa poesia, desta feita ousada e bem escrita é uma das etapas do inovador, A Três Mãos.

Ronaldo Sérgio, brasileiro, escreveu, no dia 21 deste mês, Delícias da Noite, no seu blogue Rancho das Crônicas. A visitar. 

 

 

Foto de Nicola de Luigi em http://nichotina.tumblr.com/

 Fotografia de Nicola de Luigi

 

 

Meu prazer é descascar seus desejos,
na sua frente, todos os dias,
sem pudor,
vivendo o horror do gozo.
Conhecer-te por dentro,
caminhando pelo seu corpo,
até o argasmo abrir-te toda,
e sentir minhas partes desaparecerem
entre a maciez e a doçura
de sua carne e de seus beijos.

 

 

Perder-se no toque
das mãos que caminham
sem saber por onde vão
quando vão exatamente
para onde têm que ir.
Sentir a sua pubis
excitando-te
fazendo-a pular sobre mim
fazendo-me jogar-te
de volta na cama
e ferir-te com minha bimba.

 

 

Adoro preencher seus vácuos
percorrer seus trechos devagar,
com os lábios, a língua, as mãos.
Alcançar sua delícia e fazer
e fazer meu falo tocar a pele dela
da sua márcida e fechada vulva,
entrando e quase saindo
e de novo e de novo,
tocando e suspirando
deixa-te derramar-se de prazer
molhada e com os olhos cheios d’água.

 

 

E neste deleite
esquivar-se de tudo
das coisas
de nós mesmos
deixando o orgasmo escorrer
escorrer pelo mundo todo.

400 palavras - VIII

Ajeitou a gravata quando pressentiu que a porta se preparava para ser aberta. Um homem corpulento, de tez pálida penetrou na sala estendendo a mão para a visita. Não obstante o aspecto volumoso parecia afável.

- Engenheiro Lídio Messias? Como está? – Cumprimentou.

Lídio retribuiu:

- Muito bem! Mas trate-me pelo meu nome, simplesmente.

O anfitrião sorriu com a franqueza e acrescentou:

- Claro. Faça o favor de se sentar.

E continuou:

- Veio responder ao anúncio?

- Exactamente!

- Como compreende há uma série de questões que gostaria de ver esclarecidas…

- Com todo o gosto!

O entrevistador recostou-se na cadeira e desbobinou um ror de perguntas. Ao fim de quase uma hora declarou:

- Creio que preenche todos os nossos requisitos. Sabe do negócio, tem ideias precisas do que necessitamos… Isso é muito bom! Já agora posso só colocar uma questão do foro mais pessoal?

- Obviamente…

- Quais são neste momento os seus sonhos, os seus desejos?

Resposta contínua:

- Não tenho sonhos…

- Como não?

- É como lhe disse… Não são os sonhos que me fazem mover.

- Então como chegou aqui? Como se licenciou?

- Desde cedo tive consciência que os sonhos só me atrapalhavam. Por isso abdiquei deles e apenas dei valor à lógica da vida.

Atrapalhado por aquela postura e entrevistador sentiu-se atemorizado. No entanto foi acrescentando:

- Nunca desejou um brinquedo, ter uma namorada, comprar um carro?

- Nunca! Sinto que só devo ter aquilo que posso. Os sonhos só acarretam desilusão, ansiedade e obviamente depressão. Sou pragmático e realista. O curso que frequentei não correspondeu a um desejo, mas a um estudo lógico pois rapidamente percebi que esta seria a profissão com maior empregabilidade.

- Mas acredite, que o melhor do sonho não está na conquista final… Apenas no caminho até lá!

- Acredito que assim seja. Mas prefiro não sonhar… Nem de noite!

- Se ninguém sonhasse viveríamos muito longe desta realidade. O sonho é que faz andar o mundo…

- Fez. Não faz mais! Hoje vivemos num mundo adepto de certezas e pragmatismos. Ninguém mais quer saber se o sonho comanda a vida… Sonhar com algo, como forma de vida, é somente uma mera utopia… ultrapassada.

- Nunca vi o mundo por esse prisma… sinceramente. E nessa sua filosofia onde cabe a felicidade?

A pergunta tinha rasteira. A resposta dada esquivou-se a ela:

- O que é a felicidade?