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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

O dia seguinte

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Quando acordou sentiu-se diferente. Havia muito tempo que não dormia assim. Em paz. E tudo por causa da noite e madrugada passada com ele, num local diametralmente oposto ao que seria de supor para a época do ano.

O convite que lhe fora endereçado, à laia de desafio, tivera o condão de a acordar para outra realidade. E em boa hora o aceitou pois jamais nos seus trinta e quatro anos de idade tivera um fim de ano assim... tão especial.

A sós com um homem, um mero segurança do prédio onde trabalhava. Todavia todas aquelas horas passadas pareciam ter sido somente breves minutos, tal fora a intensidade dos acontecimentos. 

Após o convite estranho mas sincero, ela aceitara partilhar a ceia que ele próprio preparara. E quando passados dez minutos o foi encontrar no lobbie do prédio, onde apenas as luzes de segurança se encontravam acesas, jamais imagina o que lhe reservaria essa noite.

Algures no mesmo andar e após ter passado um sem número de portas viu-se numa sala ampla onde numa parede surgiam incrustadas dezenas de televisões, cada uma delas correspondendo a uma câmara, espalhadas pelo prédio. Dali podia-se ter a noção total de quem andava pelos corredores ou elevadores. Um "Big Brother" em ponto pequeno, tal qual George Orwell adivinhara em 1984. Afastada da parede encontrou uma enorme mesa, repleta. Admirada perguntou:

- Quantos somos?

- Apenas nós dois!

- Mas não acha que é comida a mais só para dois?

- Sôtora... no fim veremos o que sobra!

Foi a altura ideal para fazer desaparecer formalidades. Ela chegou-se a ele e como se o visse pela primeira vez deu-lhe dois beijos na face enquanto dizia:

- Chamo-me Lídia e desde há uns bons minutos deixei de ser esssa coisa de... sôtora. Muito prazer...

Surprendido o guarda acabou por devolver:

- Sou o Arlindo - e entrando no jogo, continuou - muito prazer em conhecê-la... Lídia!

- Em conhecer-te... por tu se fizeres favor.

- Como queiras.

Sentaram-se à mesa. Lentamente iniciaram com as entradas, todas elas saborosas e quase viciantes. Coisas que vinham da aldeia, dizia ele. Depois o vinho fresco e espumoso e ser sorvido em pequenos golos. Finalmente e o mais importante a conversa que naturalmente variou entre tudo e todos. Cada um foi serenamente falando dos seus medos, anseios... desejos, numa espécie de confissões. Depois os risos, as lágrimas, as sensações retiradas do fundo das almas e corações. E o tempo passava... 

Ninguém teve sono. De quando em vez Arlindo olhava o "videowall" procurando alguma anormalidade nas televisões. Tudo conferido regresssava à conversa. Foram horas e horas naquela troca de histórias.

Um sinal de mensagem no telemóvel dela fez com que ela se apercebesse das horas e num salto perguntou:

- Ai já viste que horas são... Cinco e meia... da manhã...

- Ups, daqui a pouco vem o Gino render-me... 

- A que horas vem?

- O turno começa às sete... Mas ele chega com certeza mais cedo. E ainda tenho de fazer a ronda antes de sair.

- Quanto tempo pensas demorar?

- Hoje faz-se depressa... Um quarto de hora chega...

- Deixa que eu arrumo tudo isto.

Ele hesitava:

- Precisas ir descansar.

Ela convicta devolveu:

- Sabes Arlindo... Esta passagem de ano foi simplesmente... inesquecível! Só tenho de te agradecer...

- Agradecer? Agradecer o quê?

Ela não respondeu. Ele continuou:

- A amizade nunca se compra, conquista-se!

Ela aproximou-se de Arlindo, envolveu-o num abraço e deu-lhe um beijo sereno na face. Por fim uma última lágrima rasgou pela maquilhagem já muito estragada e alojou-se na mão dele.

 

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