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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Em fuga!

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O coração de Lídia quase estoirou. Então aquela é que era… a legítima. Deu alguns passos, tímidos e indecisos, em direcção a Arlindo, colocou-se a seu lado observando aquela mulher que caíra redonda no sofá profundamente ébria e serenamente deu a mão ao namorado. Este entrelaçou os dedos e soltou um suspiro. Tantos anos longe daquele estafermo, para aparecer agora, assim de repente, sem saber como…

Arlindo pegou rapidamente no telemóvel ligou um número e aguardou. Lídia perguntou-lhe:

- A quem estás a ligar?

- Ao 112!

- Para quê?

- Para a levar daqui para fora. Quero ficar longe deste estupor… para sempre!

- Mas ela é ainda a tua mulher.

- Legalmente sim… moralmente não!

Entretanto:

- Boa noite. Tenho aqui na minha casa uma colega que bebeu demais! Está quase em coma alcoólico. Será melhor levá-la para o hospital. E depressa.

O diálogo continuou durante um grande pedaço tentando diagnosticar o estado da esposa de Arlindo. Passado meia hora tocaram à campainha. Surgiram dois paramédicos, abordaram a mulher com competência e saber, acabando por colocá-la numa maca e levá-la para a ambulância.

- Quer acompanhá-la?

- Não posso! Estou de partida ainda hoje para o estrangeiro com a minha mulher.

E olhou para Lídia, que estranhamente nem esboçou qualquer gesto, como tudo fosse verdade.

- Conhece-lhe algum parente para o podermos contactar?

- Não… – mentiu.

- Obrigado. Nós avisaremos então a polícia. Pode ser que encontrem alguém próximo…

- Acho muito bem!

- Então boa-noite!

Assim que os enfermeiros saíram, Arlindo agarrou-se a Lídia e comunicou:

- Meu amor, vamos embora daqui…

A namorada estremeceu. Depois devolveu:

- Que se passa Arlindo?

- Quero fugir daqui o mais depressa possível. A polícia vai descobrir que eu ainda sou o marido e vai aparecer aqui. Vou contigo para a América e é já! Prepara-te, pois vamos para o aeroporto.

- Mas eu só tenho voo amanhã…

- Voamos para Paris, Madrid, Londres seja onde for e de lá seguimos para os Estados Unidos.

- Mas qual a necessidade? E o teu trabalho?

Pela primeira vez Arlindo perdera um pouco da sua compostura e continuou:

- Eu prefiro viver e envelhecer a teu lado do que trabalhar naquela empresa mas sem ti. A Jessica não é flor que se cheire e temos de fugir daquela… cabra. Enquanto eu estiver em Portugal ela há-de arranjar sempre maneira de infernizar a nossa vida.

Lídia percebia a posição do namorado mas não lhe apetecia andar a passear pela Europa só por causa de uma tipa, mesmo que fosse legalmente casada com Arlindo. Todavia…

- Se achas que é o melhor… então vamos!

Uma hora depois estavam ao balcão de uma companhia de aviação tentando comprar dois bilhetes para Nova Iorque com transbordo numa qualquer cidade europeia. Encontraram o que desejavam com partida duas horas depois. Voariam até Amesterdão e daqui para Nova Iorque. Chegariam no dia seguinte à cidade que nunca dorme.

Após terem passado as diversas barreiras de segurança sentaram-se e aguardaram o embarque. Lídia agarrara-se a Arlindo e este sentia-se imensamente feliz. Pela primeira vez na vida orgulhava-se da sua atitude. Largar tudo… por amor.

O coração parecia voar e de súbito virou-se para a namorada e declarou quase em surdina:

- Amo-te muito! – e depositou um beijo nos lábios rosados e frescos de Lídia. Esta aceitou o ósculo como se fosse a confirmação de amor que ambos nutriam um pelo outro.

- Tens fome? – Perguntou ela após longos segundos de profundo silêncio.

- Tenho. E tu?

- Também.

Decidiram então petiscar no bar que se encontrava na imensa sala de espera e que se ia enchendo de outros passageiros. À hora prevista embarcaram no avião de mãos dadas. Encontraram facilmente o lugar, sentaram-se e apertaram os cintos.

Quando o avião levantou voo direito ao céu negro, Arlindo dobrou-se sobre a namorada e espreitou pela janela. As luzes da cidade não passavam já de ínfimos pontos. Respirou fundo e deixou que uma lágrima corresse lentamente pela cara. Sabia que partia naquele instante jamais saberia quando regressaria.

Horas depois aterraram no enorme aeroporto de Amsterdão e percorreram os corredores até à sala de embarque para o avião que os levaria a Nova Iorque. Após breve espera voltaram a entrar no compartimento largo do avião de uma companhia de aviação americana.

Chovia copiosamente na cidade holandesa quando uma vez mais se elevaram no ar. Nas vidraças exteriores a chuva batia com violência enquanto a aeronave sacudia-se um pouco, mas nada de anormal. Arlindo beijou ternamente Lídia e esta recostou-se serenamente ao namorado. Segredou-lhe:

- Juntos para sempre.

Lídia apenas sorriu.

 

Senhores telespectadores, segundo uma estação de televisão inglesa, um avião das Linhas Aéreas Americanas foi dado como desaparecido esta madrugada. Fazia a ligação Amesterdão - Nova Iorque e transportava 256 passageiros. Suspeita-se que tinha sido alvo de um ataque terrorista. Aguardamos a todo o momento actualização de informações.

 (Porque ninguém gostou deste final... Segue aqui)

(

Futuro... incerto

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Após o almoço sereno e quase sem palavras, fizeram-se à estrada.

Mas antes Arlindo foi ter com o velho Albino e despediu-se:

- Da próxima vez que cá vier tem de me explicar isso do meu olhar...

O velho levantou a velha e suja boina denunciando uma calva franciscana, ajeitou-a na nuca e esboçou um sorriso numa boca sem dentes. Finalmente devolveu:

- Você é um homem sereno, mas triste. É tempo de dar cor e luz à sua vida! Não tenha medo do futuro...

Aquele discurso cheirava a profecia. Arlindo estendeu a mão e disse apenas:

- Obrigado!

O condutor olhava estrada sem nada dizer. Lídia encostara a cabeça ao ombro do causídico e dormitava. Quando acordou faltava pouco para chegar. Finalmente encheu-se de coragem e perguntou:

- E agora que vai ser de nós? Precisamos falar...

Arlindo passou a mão pelo cabelo, deu um suspiro, mas nada disse. Lembrou-se duma frase que ouvira algures: "Temos tudo o que necessitamos, que nem sempre é o que desejamos". Entrelaçou os dedos nos de Lídia, apertou-os com vigor e declarou:

- O meu futuro passa por ti, seja onde for, seja onde estiveres. O que eu sinto não é paixão mas carinho, ternura, comprometimento, disponibilidade, tudo junto resume-se numa palavra de quatro letras: amor!

Lídia chorava em silêncio. Arlindo acrescentou:

- Contigo quero também chorar, rir, gritar e suspirar. Serei um romântico lamechas por assim desejar? Nem quero saber... é o que sinto!

O trânsico aumentara consideravelmente com a aproximação da cidade. Com as mãos ainda unidas ele perguntou:

- Deixo-te em casa?

- Não! As minhas malas estão já em Nova Iorque. Posso ficar contigo... se quiseres. Mas se não...O meu voo é amanhã muito cedo.

Arlindo voltou a apertar a mão dela.

- A minha casa será a nossa enquanto aqui estiveres.

Embrenharam-se nas ruas da cidade até que pararam à porta dele. A tarde desaparecia já dando lugar à noite e de foi ainda de mãos dadas que subiram ao apartamento de Arlindo que Lídia jamais conhecera.

Era uma pequeno andar onde tudo aparecia estar arrumado, quase parecia que ali não vivia ninguém havia muito tempo. Para um homem era raro.

- Posso usar a casa de banho? - perguntou ela.

- Claro, é aquela porta - respondeu o namorado.

O toque de campaínha espantou Arlindo:

- Quem será a esta hora?

Sem espreitar abriu a porta e deu de caras com uma mulher completamente embriagada, suja e rota. Trazia uma velha mala a tiracolo e na mão uma garrafa de Rum quase vazia. A princípio Arlindo não a conheceu, mas de repente percebeu-lhe os traços por detrás do cabelo desgrenhado e exclamou:

- Que te aconteceu Jessica?

Esta entrou sem pedir licença e sentou-se no sofá. Quando Lídia saiu da casa de banho dá de caras com um espetáculo deprimente de alguém bêbado. Olha para Arlindo que encolhe os ombros e pergunta-lhe:

- Quem é? - apontando para a visita.

- É a Jessica...

 

Retalho seguinte...

 

Em passo de dança - "Ne me quites pas"

Acordou tarde. Não era costume. Mas Verónica saíra de sua casa, pelas 6 da manhã. Ainda arrumou a cozinha, tomou banho e só depois se deitou.

Adorara a noite. Jamais nos seus 36 anos de vida tivera uma assim. Filipe não era um melómano, mas adorava música e aquela mulher puxara por ele. Easy Livin dos Uriah Heep, Everyday dos Slade, Grand Hotel dos Procol Harum e tantas, tantas outras músicas que ouviram durante toda noite. Parecia uma criança a quem haviam dado um brinquedo novo. Sentia-se feliz por alguém partilhar consigo os mesmos gostos musicais.

Era um daqueles sábados tristes, cinzentos, envoltos em nevoeiro e de um frio apertado. Levantou-se devagar e foi ligar a máquina de café. Enquanto andava num afã para se arranjar e tomar o pequeno-almoço, tocou o telemóvel. Correu para ele, olhou o visor e em vez de um nome, surgia um número. Que ele conhecia… Parou para pensar:

- Atendo, não atendo…

Carregou no verde e falou:

- Bom dia, Carla…

- Olá, bom dia. Hum! Ainda guardas o meu número no teu telemóvel? - Assumiu.

- Não, por acaso já apaguei. Mas sabes eu tenho memória e ainda recordo o teu número. Bom, mas que queres tu?

- Ena! Não precisas de ser assim tão… tão.. ríspido comigo.

- Desculpa Carla, mas deite-me muito tarde e dormi pouco. Estou um tudo nada rabugento, só isso.

- Tadinho, andámos na rambóia…

- Pois… Não sei o que isso te interessa, mas diz lá o que queres.

"Filipe jamais esqueceria aquela tarde. Regressara mais cedo de Barcelona para estar com Carla, mas esta já se encontrava acompanhada. Ainda por cima na sua casa e na sua cama! Nunca mais lhe perdoaria, nunca! Nessa tarde quando apanhou Carla com um colega, em poses menos próprias, disse apenas:

- Tens uma hora para saíres e levares as tuas coisas. Já agora, deixa as chaves do apartamento em cima da mesa.

Fechou a porta atrás de si e abandonou o edifício. Uma hora mais tarde regressou e encontrou as chaves na mesa e o quarto arrumado. Aqui, retirou os lençóis e colocou-os na máquina de lavar roupa. Abriu as janelas, de forma a que o perfume de Carla desaparecesse. Dormiu no sofá. Nesse mesmo dia acertou consigo: "Nunca mais acredito numa mulher!"

Era fácil dizer, todavia muito mais difícil obedecer.

- Depois daquela tarde, nunca mais falámos… - acrescentou Carla.

- Sim e depois? – Filipe principiara a perder a paciência.

- Acho, que te devo um pedido de desculpas.

- A mim não me deves rigorosamente nada! – Respondeu secamente.

Carla percebeu pelo tom de voz, que Filipe ainda se sentia magoado. Mas que coisa a dele de ser tão cavalheiro, impecável, certinho. Não podia ter ficado mais uma hora em Barcelona e nada daquilo aconteceria. Insistiu:

- Reconheço que não fui correcta contigo. Tu não merecias que eu te tratasse daquela maneira… ordinária!

Filipe percebeu que Carla pretendia mais:

- Sinto que me queres dizer qualquer coisa que ainda não disseste…

- Por favor, Filipe. “Ne me quites pas!”