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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

400 palavras - III

O velho Alexandre foi sempre o meu porto de abrigo para muitas, talvez demasiadas, tempestades. Fazia algum tempo que não o via. Procurei-o na sua velha casa junto ao mar. Estava um dia primaveril, com o sol a encher o dia de luz e alegria. Sabia-o ali, como sempre, de cachimbo gasto e apagado na boca e olhar permanentemente atento no horizonte, onde os dois azuis se juntavam.

- Olá velho Lobo do Mar!

- Olha o maltez! Hum aqui a esta hora! Há coisa…

Ele tinha esse singelo condão de me descobrir.

- Leia isto…

Sem mais entreguei-lhe uma folha onde estava escrito: antes fugir do que remediar.

- Que queres que eu te diga?

- Tenho de escrever sobre isso…

O velho pescador pegou no cachimbo sacudiu o fornilho como se estivesse aceso. Levou-o novamente à boca e respondeu:

- É fácil… Basta falares dos dias que vais vivendo.

- Como assim?

- Todos nós a determinada altura fugimos em vez de assumirmos as nossas desventuras.

Parou de falar e virando-se para mim. De cachimbo em riste, acusou-me:

- Lembras-te quando entravas no pomar do Florimundo para lhe roubares as peras?

- Se me lembro… - sorri ao relembrar as minhas patifarias de garoto.

- Pois é, quando ele aparecia fugias pela encosta… E não voltavas atrás para devolveres a fruta.

Acenei com a cabeça, concordando.

- Ora aí está um exemplo de vida. Quantos de nós assumimos todas as nossas falhas e todos os nossos erros? Ou quantas vezes regressamos à origem para remendar um erro?

- Quase nunca – assumi!

- Fugir torna-se mais fácil, sim! Porque o homem é assim mesmo … Foi educado para esquecer. E ao fugires estás a esquecer o passado.

- Mas eu não sou assim…

- Ai és, és! Todos nós somos!

Uma pausa.

- Por exemplo no mar…

E apontou a imensidão que se abria pela frente.

- O mar dá-nos muitas lições. Quantas vezes me fiz ao largo quando devia estar em terra? A verdade é que depois de lá entrar naquele mundo revolto e tempestuoso a única coisa que me salvava e aos meus homens era fugir dali o mais depressa possível.

- Entendo…

- Não entendes nada! Porque és novo e acreditas que podes mudar o mundo.

- Então sempre é melhor fugir do que remendar?

- Não sei… Pergunta à minha filha Maria, grávida de ti…

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