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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

400 palavras - VI

A noite havia sido tórrida. Entre ambos uma miríade de beijos, carícias e desejos desvendados. Finalmente cansados, foi ela a primeira a falar.

- E se ninguém conseguisse mentir? – Perguntou naquela voz melosa de mulher apaixonada.

Ele olhou-a de soslaio e percebeu que a pergunta tinha outra intenção que apenas uma mera resposta dele. Ainda assim arriscou:

- Não haveria Pai Natal. Nem Natal. Nem prendas, nem subsídios (ups… mas isso já não há!!!). Não haveria política, nem políticos. Nem votos, nem eleitores… - ele parecia momentaneamente perdido e imparável na resposta.

-… Não haveria traição, nem tristeza. Nem palavras ocas, nem promessas vãs. Nem sorrisos disfarçados, nem alegrias desmedidas.

Ela ergueu-se do seu conforto e mesmo desnudada depositou nos lábios do amante um beijo e formulou uma nova questão:

- Acreditas que haja no mundo quem não minta?

Ele cruzou os braços por debaixo da cabeça e olhando o tecto alvo desabafou:

- Eu! Eu não minto. Posso eventualmente omitir mas não minto.

Ela insistiu:

- Mas se todos nós não conseguíssemos mentir? Apenas disséssemos a verdade?

Ele respirou fundo como estivesse a fazer um frete e devolveu:

- A vida era demasiado insossa para ser vivida. O que apimenta os dias é o risco de sermos levados a mentir.

- Mas ainda agora disseste que não mentias…

Apanhado na contradição esfarrapou uma má desculpa:

- Falava em termos da nossa sociedade, como está ora constituída… não apenas de mim, de ti… de nós!

- Sabes que mentir é muito feio?

- E a verdade magoa… especialmente para quem a ouve!

Ela voltou a deitar-se na cama sedosa e foi a sua vez de fixar o tecto. Por fim insistiu num tom pouco amistoso:

- É preferível viver numa mentira permanente… só porque a verdade dói?

Ele calou-se. A conversa toldara-se num tema pouco simpático. A noite fora quase perfeita… Um jantar saboroso, uma dança longa, aquelas primeiras carícias. Levantou-se de supetão da cama, nu e dirigiu-se à casa de banho. Regressou finalmente com a escova de dentes enfiada na boca e a espuma branca a fugir pelos cantos e a sucessiva acção da escova a bailar. Após a passageira irritação ela olhou com ternura e vaidade, o corpo musculado e esbelto do amante, sorriu interiormente e pensou:

- A este homem jamais será revelada a verdade, porque há-se sempre julgar sempre que lhe mentem! Ou será que não?

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