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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

400 palavras - VII

A notícia penetrou-lhe na alma tal qual um murro na boca do estômago. A dor ficara presa dentro de si sem hipótese de sair. Um tormento!

Em toda a sua já longa vida habituara-se a lidar com o imprevisível e o inesperado. E acatara serenamente tudo o que o destino, ou fosse lá o que fosse que lhe chamassem, lhe reservara. Tudo… menos aquele momento.

Aceitara que a mãe tivesse abandonado o pai, trocando-o por um qualquer artista plástico de qualidade assaz duvidosa. Acatara com condescendência que a mulher se tornasse alcoólica por viver ociosa. Concordava que os filhos o deixassem só, fugindo certamente a uma mãe que jamais os soubera educar.

A sua vida resumia-se por isso ao dinheiro que ganhara e ao que com ele conseguira adquirir. Não tinha amigos verdadeiros, nem familiares próximos que o amparassem. Estava só no mundo. Mas esta solidão não o magoava.

Uma singela lágrima tremeu nos olhos, teimando em correr pela cara bem escanhoada. Passou as costas da mão pela face e limpou o sal humano.

Tanta raiva contida, quantos desejos adiados, tantas palavras silenciadas… para nada! Restava a pergunta: valera a pena?

Nem pensou em responder.

Em passo lento entrou no escritório, onde prateleiras com milhares de livros que nunca lera, forravam as paredes. Em cima da secretária uma moldura que ele pegou e virando-a para si reparou nos seus três filhos ainda pequenos. Lembrava-se tão bem daquele dia na sua casa da praia com os descendentes no areal e a mulher na cama a curar mais uma das muitas e usuais bebedeiras.

Sentou-se num velho “fauteil”, herança de um avô belga, encostou a cabeça ao braço e ficou ali estático a contorcer-se com aquela dor que se embrenhara na alma. Algo dilacerante que o queimava por dentro.

Algures na imensa casa silenciosa e fria tocou um relógio. E depois outro. Deixou que o tempo passasse lentamente e tentou simplesmente não pensar. Pela primeira vez em muitos anos desligara o telemóvel. Queria estar em silêncio, carpir somente a mágoa que o consumia.

Olhou então para o pequeno móvel que ladeava a poltrona herdada, onde um candeeiro de loiça irradiava uma luz quente e amarela. Ao lado do pequeno lustre mais fotografias e claro está mais recordações.

Serenamente abriu a porta do pequeno móvel, meteu a mão dentro como se tivesse a certeza do que ia encontrar e finalmente retirou a pistola.

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