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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

A tal?

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Acordou sobressaltada com um insistente toque na campainha da porta. Olhou as horas no relógio luminoso e viu: 2 e 20.

Estremunhada levantou-se, vestiu o roupão e encaminhou-se a cambalear para a porta. Espreitou pela pequena vigia e viu… Arlindo! Rodou a chave e preparava-se para dar um raspanete ao amigo quando abrisse a porta quando percebeu que o amigo tinha mais para lhe dizer… e que ela não vira. Colado ao peito havia um cartaz com dizeres: Não digas o meu nome. Veste-te e vem ter comigo lá fora! É urgente!

Lídia ainda meio adormecida tentou ainda dizer alguma coisa mas o dedo de Arlindo em riste obrigou-a a calar-se. Fechou a porta, vestiu uma roupa prática e desceu logo que pode à rua. Estava uma noite fria, um vento frio agitava-se por entre as folhas perenes das árvores que cresciam no passeio da grande avenida. Mas Lídia agasalhara-se o suficiente. Já ao relento percebeu a figura do amigo de costas e que se achava encostado a um poste de electricidade. Aproximou-se devagar e perguntou de forma ríspida:

- Tu sabes que horas são?

- Olá boa noite! E sei muito bem que horas são agora. Mas preciso falar contigo com urgência.

- Que tens para me dizer?

- Bom… é melhor começar pelo mais importante: querem-te de volta à empresa!

- Como sabes isso? Mais uma das tuas misteriosas histórias…

- Lídia, tem calma e ouve-me se fazes favor…

- Sou toda ouvidos.

- Mas vamos caminhando, sim?

- Está bem, mas despacha-te que eu quero descansar.

- Há cerca de duas semanas perguntaram-me se mantinha relações de amizade contigo e ao que eu respondi que sim mas que havia tempo que não falávamos. Finalmente pediram que te sondasse para perceber se estavas disponível para regressar. Segundo percebi o indígena que te substituiu só tem feito asneiras e há gente já com vontade de sair…

- … Parece que não fui só eu…

Arlindo ignorou olimpicamente o último comentário.

- E esta tarde quando te liguei a determinada altura o teu telefone desligou-se…

- Ficou sem carga!

- Pois calculei, mas meia hora depois liga-me o senhor Fialho a perguntar se já te tinha convencido a regressar. Percebi instantaneamente que o telemóvel que me haviam oferecido estava a ser monitorizado e desliguei logo a chamada.

- Como? Explica lá isso outra vez… - solicitou Lídia atónita com a nova descoberta.

- Desculpa, mas a culpa não é minha… Eu sei que isto parece um filme daqueles de Hollywood mas é pura da verdade… Eles andam a escutar as minhas conversas.

- E serão só as tuas?

- Acredito que sim porque o aparelho foi-me disponibilizado por eles vai para umas semanas.

Lídia soltou um riso quase maléfico e revelou:

- Pois estão com azar… Estou de partida para os Estados Unidos ainda esta semana. Ando apenas a ultimar umas burocracias.

O chão tremeu debaixo de Arlindo. Sabia que aquela mulher era… a tal! E encontrava-se na eminência de ficar sem ela, mais uma vez. Todavia, aparentando uma calma glaciar perguntou:

- Ena, e posso saber para que cidade vais?

Não era esta a pergunta que Lídia desejava ouvir de Arlindo mas respondeu:

- Para a cidade que nunca dorme… Sabes qual é?

- Sim sei muito bem… Essa cidade é tal e qual como eu… Também nunca durmo!

 

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