Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Amor e raiva

... Retalho anterior

 

- Estamos no aeroporto Figo Maduro a aguardar que aterre um avião C130 da Força Aéra Portuguesa que trará o casal de portugueses resgatados ontem numa operação relâmpago levada a cabo por diversas forças policiais e militares...

Jessica ouvia a televisão instalada no gabinete de enfermagem da fragata onde estava embarcada, mas estava tão absorvida na sua pesquisa na internet que nem olhava para o ecran.

- ... São muitos os jornalistas aqui presentes a aguardar a saída do casal português. Poucas são as informações de que dispomos... apenas nos foi divulgado os nomes de Lídia Noronha e Arlindo Neves como sendo os portugueses heróis desta aventura digna de Hollywood.

Finalmente a televisão captara a sua atenção. O seu coração passou a bater em ritmo acelerado e não conseguiu conter um profundo desabafo:

- Como fui capaz de enganar este homem?

Uma questão que ela própria não sabia responder. No fundo, no fundo sempre amara Arlindo. Mas naquele tempo ele parecia tão puro, tão ingénuo que se aproveitou da sua inocência. No momento seguinte cresceu-lhe uma raiva, um sentimento de posse sobre aquele homem, após tantos anos afastado dela. Quantas vezes adormecera e acabara sonhando com Arlindo? Perdera-lhe o conto. E aquela gravidez...

Fechou o portátil, arrumou-o e decidiu ir até ao aeroporto... No entanto pensou racionalmente e preferiu ficar a ver e a ouvir o que o pequeno ecran tinha para lhe mostrar.

- ... Segundo podemos observar há já alguns elementos da polícia a deslocarem-se para dentro do aeroporto de forma a criarem um cordão de segurança. Aguardamos a todo o momento o aparecimento do casal português. Está ainda por confirmar se há alguma relação entre ambos ou foi uma mera coincidência terem apanhado o mesmo avião.

A sargento-ajudante, recentemente promovida, acabou por retirar o som da televisão. As lágrimas rolaram em abundãncia pela face ainda bonita. Por fim pegou no telemóvel, buscou um número e ligou. Esperou pacientemente que alguém atendesse:

- Que queres? - perguntaram ao atender.

- Desculpa Adail mas precisamos falar...

- Outra vez? Não achas que já estás a abusar. Nada mais temos a dizer um ao outro...

- Temos sim e é importante!

- Se vens outra vez com esquemas... tira o cavalinho da chuva...

- Não Adail, o que tenho para te dizer é grave e envolve a Maria da Graça.

- Por amor de Deus diz o que tens a dizer e deixa-me em paz...

Na televisão viu por fim Arlindo com aspecto desolador mas muito agarrado à outra mulher. Por fim virou-se para o telefone e avançou num tom de voz frio:

- Desculpa não te volto a ligar.

E desligou ao mesmo tempo que aumentava o som, conseguindo ainda ouvir as últimas declarações de Arlindo:

- ... foi a minha mulher que nos salvou!

Jessica gritou:

- A tua mulher sou eu, sacana!

 

Retalho seguinte...

4 comentários

Comentar post