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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Arlindo

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Foi numa manhã gelada e enevoada de Janeiro que Arlindo nasceu, numa aldeia embutida na encosta da serra fria e pedregosa. Fora o quinto filho e a alegria da sua chegada fora saudada como do nascimento da primeira criança.

- É um rapagão. Perfeitinho! – concluiu a parteira velha e balofa, que fizera vir ao mundo mais de metade da aldeia.

A mãe não sabia se havia de rir ou chorar. O primeiro rapaz… Os anteriores haviam sido somente raparigas. Fora do quarto, bem encostado à lareira pujante, sentado num banco pequeno e puído aguardava Abílio, o pai da criança. Com um longo cavaco ia mexendo o lume, um velho hábito que trouxera de casa de seus pais. Sabia que a mulher era uma corajosa e não escutou durante o parto qualquer grito que fosse. Aguardava pacientemente. Entretanto as meninas haviam sido distribuídas pelos diversos tios.

Quando a porta do quarto se abriu e o recém-nascido apareceu nos braços da avó Filomena, o homem deu um salto e sem nada perguntar deixou que a sogra falasse. Esta olhou-o bem de frente e esticando os braços entregou-lhe a criança com uma declaração:

- Tens aí o teu homem… Sei que andavas à procura de um rapaz…

Nem queria acreditar…

- Um rapaz? – E pegando na criança confirmou o sexo.

Devagar encostou os seus lábios secos e rugosos do frio e deu o primeiro beijo no seu varão. Depois entregou-o à sogra e perguntou:

- Posso vê-la?

- Claro. Ela está à tua espera.

De mansinho penetrou no quarto, agora escuro após o parto e aproximou-se da cama onde Lucinda parecia dormitar. Sem nada dizer deu um beijo na fronte da mulher e retirou-se.  Estava a chegar à porta quando ouviu a mulher perguntar em tom baixo:

- Estás contente?

Abílio voltou para trás:

- Estou… E tu…pensei que estivesses a dormir?

Mas Lucinda nem ouvira a pergunta e quase em surdina voltou a perguntar:

- Que nome lhe vamos dar?

- Não sei, talvez o do padrinho. Agora descansa - saiu então e fechou a porta atrás de si.

Anos mais tarde Arlindo corria atrás das ovelhas e das cabras acompanhando sempre o pai. Vaidoso pelo rapaz que crescia a olhos vistos, Abílio perdia-se em pensamentos e desejos para o jovem:

- Há-de ser um grande homem… este meu rapaz. Nada lhe há-de faltar.

Só que o filho tinha outras ideias e mal pode sair de casa partiu para a tropa. Para trás ficara o cabo da enxada e do cajado. Acabou por ir parar à Marinha, onde viajou pelos malagueiros da vida, mais do que esperavam e desejavam Lucinda e Abílio. Deixou a vida militar por vontade própria mas depressa arranjou emprego. Foi sempre saltitando de trabalho até encontrar um à sua vontade.

Da aldeia trouxera apenas um desejo: voltar a estudar, ser mais alguém… que as irmãs. Apenas uma destas parecia estar melhor que as outras. Partira para a Alemanha atrás de um estúpido romance sem futuro mas por lá ficara a trabalhar. As outras haviam casado, engordado, parido uma ranchada de filhos e trabalhavam que nem moiras para manterem as suas casas em ordem.

Arlindo olhou o relógio e esperou que Gino aparecesse na sua habitual farda, para o substituir. Enquanto aguardava na sala principal de segurança, voltou a olhar a mesa onde ceara bem acompanhado. Fora uma noite tão diferente e tão marcante que jamais se esqueceria.

Perguntou a si mesmo como uma mulher com tanto poder podia ser tão infeliz. Percebeu pelas longas horas de conversa, que Lídia era uma mulher dura, marcada pela frieza duma vida passada sem família. Ou pelo menos muito ausente. E depois lembrou-se das festas na casa dos seus pais, sempre sem brinquedos, era certo, mas com muita gente à sua volta.

De olhos postos nas televisões olhava mas não via, tal era a viagem…pelo passado. Uma mão tocou-lhe no ombro e Arlindo deu um salto, assustado. Era Gino!

 

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