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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Reencontro

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Espreguiçou-se como não fazia havia muito tempo. Embrulhou-se num roupão que trouxera de Viena e abriu a janela do quarto. O dia estava luminoso mas frio, muito frio.

Saiu do quarto, dirigiu-se à cozinha e ligou a cafeteira eléctrica. Olhou as horas no relógio do microondas e exclamou:

- Ena, já passa do meio-dia…

Veio-lhe então à ideia a mãe… Alcoólica, era por aquela hora que se costuma levantar. E no segundo seguinte Lídia saltou para a sua infância repleta de tristes episódios, intermináveis viagens e imensas discussões. E eram estas últimas que mais a marcavam. Primeiro a mãe com o pai quando ele chegava sempre muito tarde a casa, desculpando-se com trabalho. Depois o pai a ralhar com a mulher por esta trocar os filhos por uma qualquer garrafa de álcool. Lídia percebia, entendia mas não gostava. Nunca!

A água fervia. Numa chávena colocou o pacote de chá e inundou-a de água quente. Esta mudou de cor até ter um tom castanho-escuro. Sem açúcar nem adoçante. Sentou-se no sofá de grandes dimensões e que raramente usava acendeu a televisão e beberricou a infusão bem quente. Não lhe interessava o que passava no grande ecrã, apenas necessitava de companhia.

Lembrou-se do telemóvel e levantando-se foi à mala buscá-lo. Ninguém lhe ligara com certeza. Porém no pequeno visor encontrou sinal de uma mensagem nova. De Arlindo, às 8 horas dessa manhã. Precipitadamente tentou ler a mensagem mas teve primeiro que desbloquear o aparelho. E com a pressa por duas vezes se enganou. Finalmente quando conseguiu, pode ler:

“Oi miga. Cheguei bem e tu? Ganda noite. Para repetir?”

Um sorriso surgiu na face bonita de Lídia. Pensou ligar-lhe mas depois respondeu à mensagem:

“Repetir? Achas k vou esperar 1 ano?” e carregou na tecla de “enviar”. No segundo seguinte o telefone tocou. Era ele. Atendeu:

- Já acordado. Dormiste pouco…

- Se queres saber nem dormi. Estive a preparar o nosso almaço.

- Nosso?

- Sim, sim que eu vou-te aí buscar… ou tens outra coisa combinada com alguém?

Pareceu-lhe que estavam a andar depressa demais. Ao mesmo tempo desejava e muito voltar a conversar… Foi dizendo:

- Duas vezes a pôr a mesa? Isso sai caro… Provavelmente será melhor tu vires cá, desta vez.

Ele deu uma gargalhada que a fez sorrir uma vez mais:

- Segundo percebi pela conversa desta noite não sabes cozinhar…

- Pois não mas trazes para aqui as coisas e fazemos em conjunto. Ensinas-me…

O desafio estava lançado e Lídia nem tinha consciência do que dizia. Acrescentou:

- Quanto tempo pensas demorar até aqui?

Silêncio.

- Ainda estás aí? Arlindo?

Finalmente ele veio à linha e respondeu-lhe:

- Desculpa tinha o caril a pegar-se e o telemóvel está longe porque está sem bateria.

- Caril? Hum! Gosto disso… Até cheira aqui… Hum e é de quê, se se pode saber?

- Logo saberás…

- Então vou pôr a mesa… Mas a sério quanto tempo?

- Uma hora no mínimo.

Lídia ergueu-se rapidamente, vestiu o mais prático pegou na mala e saiu em busca de uma loja que estivesse aberta. Quando por fim chegou a casa reparou que só tinha 15 minutos. E apressou-se.

Duas horas mais tarde, sentados no imenso sofá, Lídia e Arlindo riam despreocupadamente. Parecia que a conversa da madrugada regressara ao convívio de ambos, que haviam bebido substancialmente bem. O vinho libertara alguns travões sentimentais e Lídia parecia a mais necessitada de falar. Falou durante longos minutos. Da sua vida, dos seus sentimentos, da família. Finalmente concluiu:

- A minha vida não dava um filme…

- Porquê?

- Porque não tem fins felizes.

- Mas já viste o filme da tua vida até ao fim?

- Não… Mas imagino...

 

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