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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Claras no castelo

 

Clara habitava num modesto lar, apenas com o indispensável para sobreviver. Naquela manhã ventosa, dividia as tarefas domésticas com a irmã, como sempre fizera. O pai partira cedo para a pesca, no seu singelo barco casca de noz que, tão fraco, mais se assemelhava a uma casca de ovo. Galena, a mãe, apanhava verduras.

 

Na normalidade daquele dia, Clara pressentia uma diferença. O cão não ladrara e, quando a mãe entrou no pátio, os porcos não grunhiram. Os pássaros já não pareciam habitar a floresta circundante. Só o vento passava, forte e perentório.

 

Pisou propositadamente a cauda do gato. Nada, nem um pequeno miar.

 

- Clara, o que raio se passa contigo? Queres que eu dobre isto tudo sozinha?

 

- Desculpa, estava distraída… – Não tencionava alarmar a irmã. Na verdade, concluiu que nem havia motivos válidos para estar assim. Sentiu-se tola e tentou afastar aqueles pensamentos, enquanto dobrava a camisa gasta do pai. De seguida, foi estender o cobertor.

 

“Clara”. Ouviu uma voz, lá ao fundo, perto da nascente. “Clara”.

 

A roupa caiu do estendal, mas a jovem nem sequer deu conta. Começou a caminhar, descalça, na direção da nascente. À sua volta, as árvores eram sacudidas. “Clara”. A voz feminina intensificara-se.


O ritmo dos passos da rapariga era constante e os seus olhos não transmitiam qualquer emoção. Estava mais serena do que alguma vez estivera.


Quase a terminar a subida até ao planalto, Clara avistou mais pessoas, ao longe. Eram meninas, raparigas e senhoras, de várias idades. Todas caminhavam na direção do chamamento. Nunca as vira antes, mas não pensou nisso. Não era capaz de raciocinar, naquele estado de quase inconsciência. Já não era dona de si.

 
Mais à frente, avistava-se um castelo, alto e imponente. A multidão de mulheres, em transe, dirigia-se para o grande portão. Todas aquelas Claras estavam a chegar ao destino, para cumprir a função que lhes estava reservada.

 

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