Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Confissão

Ela olhava-o com aquela ternura que o meio século de casamento obriga. Os olhos dele estavam fixos em lugar nenhum. Sem expressão, frios, longínquos.

Sentado num velho sofá tinha uma manta a aconchegar-lhe as pernas inertes. Os sucessivos AVC's haviam-no atirado para aquele marasmo e imobilidade.

Sentada à sua frente, a mulher passava a colher numa espécie de papa que lhe punha na boca e que ele engolia, provavelmente sem saber.

- O que eu não dava homem para ouvir de ti uma palavra. Uma só que fosse.

E continuava a passar a colher na papa.

- Tu que eras tão tagarela, tão falador... que me disseste tantas vezes que me amavas...

Meteu-lhe uma colher repleta na boca.

- Não sei se me ouves ou não. Os médicos dizem que não. Estou a falar para ti como se estivesse a falar para mim.

Introduziu a segunda colher de papa.

- Ao fim de todos estes anos só agora sou capaz de te dizer que te amo. E também sei que gostarias de me ouvir dizer isto.

Baixou a cabeça para o prato de papa, que continuava a mexer.

Por isso não viu uma simples lágrima cair no regaço do homem.

 

6 comentários

Comentar post