Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Em passo de dança - "Ne me quites pas"

Acordou tarde. Não era costume. Mas Verónica saíra de sua casa, pelas 6 da manhã. Ainda arrumou a cozinha, tomou banho e só depois se deitou.

Adorara a noite. Jamais nos seus 36 anos de vida tivera uma assim. Filipe não era um melómano, mas adorava música e aquela mulher puxara por ele. Easy Livin dos Uriah Heep, Everyday dos Slade, Grand Hotel dos Procol Harum e tantas, tantas outras músicas que ouviram durante toda noite. Parecia uma criança a quem haviam dado um brinquedo novo. Sentia-se feliz por alguém partilhar consigo os mesmos gostos musicais.

Era um daqueles sábados tristes, cinzentos, envoltos em nevoeiro e de um frio apertado. Levantou-se devagar e foi ligar a máquina de café. Enquanto andava num afã para se arranjar e tomar o pequeno-almoço, tocou o telemóvel. Correu para ele, olhou o visor e em vez de um nome, surgia um número. Que ele conhecia… Parou para pensar:

- Atendo, não atendo…

Carregou no verde e falou:

- Bom dia, Carla…

- Olá, bom dia. Hum! Ainda guardas o meu número no teu telemóvel? - Assumiu.

- Não, por acaso já apaguei. Mas sabes eu tenho memória e ainda recordo o teu número. Bom, mas que queres tu?

- Ena! Não precisas de ser assim tão… tão.. ríspido comigo.

- Desculpa Carla, mas deite-me muito tarde e dormi pouco. Estou um tudo nada rabugento, só isso.

- Tadinho, andámos na rambóia…

- Pois… Não sei o que isso te interessa, mas diz lá o que queres.

"Filipe jamais esqueceria aquela tarde. Regressara mais cedo de Barcelona para estar com Carla, mas esta já se encontrava acompanhada. Ainda por cima na sua casa e na sua cama! Nunca mais lhe perdoaria, nunca! Nessa tarde quando apanhou Carla com um colega, em poses menos próprias, disse apenas:

- Tens uma hora para saíres e levares as tuas coisas. Já agora, deixa as chaves do apartamento em cima da mesa.

Fechou a porta atrás de si e abandonou o edifício. Uma hora mais tarde regressou e encontrou as chaves na mesa e o quarto arrumado. Aqui, retirou os lençóis e colocou-os na máquina de lavar roupa. Abriu as janelas, de forma a que o perfume de Carla desaparecesse. Dormiu no sofá. Nesse mesmo dia acertou consigo: "Nunca mais acredito numa mulher!"

Era fácil dizer, todavia muito mais difícil obedecer.

- Depois daquela tarde, nunca mais falámos… - acrescentou Carla.

- Sim e depois? – Filipe principiara a perder a paciência.

- Acho, que te devo um pedido de desculpas.

- A mim não me deves rigorosamente nada! – Respondeu secamente.

Carla percebeu pelo tom de voz, que Filipe ainda se sentia magoado. Mas que coisa a dele de ser tão cavalheiro, impecável, certinho. Não podia ter ficado mais uma hora em Barcelona e nada daquilo aconteceria. Insistiu:

- Reconheço que não fui correcta contigo. Tu não merecias que eu te tratasse daquela maneira… ordinária!

Filipe percebeu que Carla pretendia mais:

- Sinto que me queres dizer qualquer coisa que ainda não disseste…

- Por favor, Filipe. “Ne me quites pas!”

8 comentários

Comentar post