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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Em passo de dança - "Wish you were here"

Já raiava o dia quando abriu a porta do prédio. Subiu ao 6º andar e meteu a chave à porta. Rodou duas vezes e entrou finalmente em casa. Ligou a luz que iluminou profusamente uma entrada bem mobilada. Diversos quadros modernos, uma cómoda herança de família e um candeeiro de pé para além dos projectores que emanavam do tecto falso. Dirigiu-se ao quarto e despiu o casaco comprido, cinza. Descalçou os sapatos de salto alto e desceu ao seu metro e setenta. Sentou-se à beira da cama e foi descalçando as meias pretas. O olhar estava vidrado em nenhures. No seu pensamento apenas a noite que agora terminava. Jamais pensara que era capaz de uma noite assim. Ela, Verónica de Assis Moreno, filha de um oficial do exército já aposentado e de uma professora de inglês, também reformada. A melhor aluna da faculdade de Economia, e gestora de uma multinacional em expansão… Ainda lidava mal com a morte do marido. Mãe de uma criança de sete anos, de férias com os avós maternos, deixara-se, num segundo fatídico, inundar por uma paixão que nunca sentira por ninguém… Mas Filipe parecia ser um homem diferente. Talvez não o fosse. Mas ela queria acreditar que sim. Que era! Pelo menos fora-o, nessa noite.

"O jantar feito e servido por ele. Ela ajudara-o obviamente, enquanto ouviam Alchemy de Dire Straits. Mas ele encarregara-se da parte nobre. Por fim, as conversas, as palavras ditas quase em surdina. A graça que ele mostrava em falar de certos episódios da sua vida. Filipe não era um homem belo, mas tinha uma postura atraente. Humilde e sincero, falava pouco de si e mais na família perdida lá para Trás os Montes. E ela ouvia e ria como já não se lembrava de rir. E chorou quando ele lhe pediu para mostrar a fotografia de Frederico, o filho."

Estiveram horas e horas naquele mundo de palavras e sentimentos. As mãos entrelaçadas nas dele, sentidos ao rubro ou à flor da pele, nem ela sabia já. A música continuava a tocar ininterruptamente mas em volume baixo. E falaram também das canções que gostavam, das bandas que ouviam, quase sempre coincidentes. Tanta coisa em comum…

Verónica estava nua. Dirigiu-se ao chuveiro e deixou que a água tépida a molhasse indefinidamente. Finalmente tomou banho e saiu enrolada num roupão turco cor de rosa. Voltou a sentar-se e regressaram as lembranças dessa noite.

"O digestivo bebido em frente da lareira que acendera de propósito. Um dossier repleto de bilhetes de concertos ao vivo, que Filipe fora ver. E começara muito cedo com os The Police no estádio do Belenenses em 1980 e acabando já com os bilhetes para o Rock’n Rio de 2012 para ver The Boss. E a cada espectáculo Filipe associava uma estória, uma graça."

Sentiu vontade de se vestir e voltar a estar com ele. Fora um cavalheiro. "Quando deram por isso, eram altas horas da madrugada. Filipe levantou-se do sofá e pediu a Verónica que aguardasse. Ela ouvia na cozinha novamente loiça a ser mexida. Quando de repente olhou para Filipe, este carregava um tabuleiro com ovos mexidos e duas canecas de chocolate quente. Ela quase desmaiou…" Precisava saber e perguntou-lhe porquê. Porque a tratava assim? Ele apenas respondeu que ambos gostavam das mesmas músicas e nunca conhecera ninguém assim, com o mesmo gosto dele.

Verónica deitou-se finalmente, nua! E a pensar em Pink Floyd murmurou:

“Wish you were here”

 

Publicado a 1ª vez aqui

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