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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Na aldeia

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O relógio digital do carro marcava meio-dia, talvez daí a razão da fome que sentia. Como faltavam poucos quilómetros para chegar à aldeia achou melhor parar para comer pois, certamente, ninguém da família contaria com ele para almoçar.

Desde que saíra da estação de serviço que o seu pensamento voava por entre as horas passadas com Lídia. A última mensagem, da qual não obtivera qualquer resposta, tivera o condão de despoletar vagas de recordações com aquela que poderia ter sido a sua namorada. Mas a imbecil da sua ex estragara tudo. E desde esse instante nunca mais Lídia o olhou da mesma maneira… E as perguntas martelavam-lhe o pensamento: deveria ter arranjado uma desculpa? E quando ela soubesse a verdade?

Aproximou-se duma povoação, parou no centro e olhou em redor um busca de um lugar para comer. Não viu nada que lhe desse essa indicação mas descobriu um idoso apoiado a uma bengala puída, sentado numa pedra. Foi a ele que se dirigiu:

- Boa tarde, amigo.

- B’tarde!

- Sabe onde posso encontrar um restaurante para almoçar?

O ancião mediu-o de alto a baixo e após uns segundos levantou a bengala e apontou uma rua estreita, acrescentando:

- Aí em frente tem uma casa à direita que serve comida. Experimente!

- E é boa?

- Eu como lá todos os dias…

Arlindo estranhou que um idoso fosse todos os dias ao restaurante e por isso espantou-se:

- Todos os dias?

- Sim… O restaurante é da minha filha!

Arlindo riu com a sua idiotice e agradeceu.

Após o repasto, que lhe surgiu melhor do que seria de supor, regressou à estrada. Finalmente viu a aldeia no fundo do vale repleto de nacos de vegetação verde. Devagar negociou as curvas perigosas a baixa velocidade. Quando entrou no povoado este parecia estranhamente vazio. Atravessou as ruas estreitas e empedradas até ao lado oposto onde se situava a casa da mãe e aí parou o seu carro.

Olhou à sua volta e percebeu que nada mudara, rigorosamente nada. Foi como se tivesse saído dali no dia anterior. Calculava que o corpo do pai estaria na velha e pequena capela de S. João, que só se abria para a função de capela mortuária. Mas não se sentia preparado para o que possivelmente iria ver. Carpideiras convictas mãe e irmãs, assim que o vissem iriam descarregar torrente de lágrimas. Respirou fundo!

Passou por diversos pessoas a quem cumprimentou, como era hábito e percebendo que ficavam a falar de si nas suas costas. Finalmente a capela. À porta, ninguém.

Ao entrar sentiu logo o cheiro nauseabundo das flores e da cera das velas que davam ao local uma luz mortiça. No meio da pequena sala o caixão contendo o féretro do pai. Finalmente os olhos habituaram-se à quase escuridão e aproximou-se da mãe que descobriu a um canto da sala enterrada num sofá.

Tal como previra, mãe e irmãs quando o viram irromperam numa espécie de coro de lágrimas que ele não gostava, mas assumia ser mais ou menos normal.

- O teu pai morreu sem saber nada de ti… - acusava a mãe.

- O pai, Arlindo… o pai morreu – chorava uma das irmãs enquanto o cumprimentava com dois beijos molhados.

Sentia-se triste pelo pai obviamente mas odiava aquele ambiente tétrico e doentio. À volta da sala mais mulheres pareciam rezar de terço em punho. Outras apenas olhavam para o recém-chegado e comentavam em surdina…

Arlindo nunca fora um homem de fé não obstante os pais o terem ensinado o básico do catolicismo. Sentou-se numa cadeira ao lado da mãe e foi respondendo ao interrogatório familiar que ele sabia natural… O tempo naquele lugar passava devagar. De vez em quando entrava mais uma mulher e repetia-se o ritual. Choros e gritos que Arlindo assumia como sendo prova de qualquer coisa. Ainda não sabia bem do quê…

Ali esteve horas agradecendo os cumprimentos de pêsames a quem o cumprimentava e viu quase toda a aldeia passar por aquele espaço homenageando o seu pai. Já era tarde quando um dos cunhados, um homem rude e de fracas maneiras foi ter com Arlindo:

- Quer ir comer qualquer coisa? Está aí há horas…

Era óbvio que precisava sair dali… Aproveitou então o convite e disse à mãe:

- Vou ser se como qualquer coisa. Quer que lhe traga algo?

- Não filho, não tenho fome - choramingava a mãe.

A noite tomara conta da aldeia e uma brisa fria soprava vindo da serra. O pequeno adro estava agora repleto de homens que conversavam em tom baixo. Mas uma voz sobressaiu de todas as outras. E essa voz perguntava:

- Onde posso encontrar o Arlindo?

Este voltou-se e só soube exclamar:

- Lídia!

 

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