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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Não me deixes, Bárbara

Aos nossos leitores, em janeiro, foi deixado um desafio, como podem aqui recordar.

A Lídia, nossa gentil e estimada leitora, o seu contributo enviou, quase de imediato. Por minha culpa, dado não consultar a minha conta de correio eletrónico da yahoo há vários meses, só agora nos é possível partilhar esta pérola com os nossos leitores, ao som do desafio: Slave to love.



 

 

Não me deixes, Bárbara

 

Os seus dedos agitavam-se desenfreadamente. Luís estava tão absorvido que o tempo ganhava uma outra dimensão. Com gestos ora rápidos, ora pausados, fazia questão de sair vitorioso daquele duelo.
Bárbara passava a palma da mão pela cara suada, na sala ao lado. Felizmente, as crianças já estavam deitadas. O cesto da roupa perfumada e hostil esperava-a desde o início da noite para mais uma escalada de trabalho.
O olhar dele ficou crispado de repente. Os seus gestos, aliviados de toda a carga emotiva, tornaram-se subitamente mais vagarosos. Acabara de perder… Era urgente retomar as rédeas do poder.


À medida que deslizava pela roupa demasiado seca, o ferro tornava-a mais macia, enquanto a aquecia. Deixava-se conquistar a custo, apesar do pulso firme de Bárbara. Ela revia mentalmente o seu dia e a lembrança dos comentários jocosos dos seus colegas da fábrica tornara aquele serviço menos penoso. Se eles soubessem…
“Ah, agora é que vão ver do que sou capaz!” – assegurava-se Luís, sem desligar os olhos do ecrã.


Com o seu adversário têxtil finalmente derrotado, arrumou o cesto na despensa.
– Luís, e se nós nos fôssemos deitar?

Silêncio surdo.

– Não te apetece ir comigo até lá abaixo?

À espera de uma resposta que não chegara a ser pronunciada, Bárbara olhou para o relógio. Poderia ir, sozinha, até ao café da vizinha, acalmar a sua tormenta interior… Alguns instantes depois daquele vão monólogo, atirou as leggins para a roupa suja e vestiu as suas calças preferidas. Ajeitou os cabelos pretos. Colocou um pouco de rimel nos olhos cansados. O som da porta a bater interrompeu bruscamente o silêncio.

Numa das mesas, uma colega acenava-lhe. A interpelação “Olha quem chegou!..” sobrepôs-se ruidosamente ao som de uma música do Bryan Ferry.
Apesar da alegria serena que tentava transmitir, o seu pensamento voava noutras direções… Estava farta de ser cativa daquele homem que lhe roubara a possibilidade de uma felicidade partilhada. As promessas que a tinham cativado no início da sua relação haviam evaporado, tal como o cesto da roupa esvaziado, e a sua vida tornara-se um cativeiro…

– Bárbara! BÁRBARA! Por que é que não me respondes?
Regressara à realidade e só então notara a ausência dela. Escravo do maldito jogo! Só nestes momentos, sentia remorsos do seu desapego por aquela mulher cujos olhos negros um dia o tinham seduzido.
“Não me deixes, Bárbara…Nunca me deixes…”


Lídia

 

Aviso: Qualquer semelhança com o poema ENDECHAS A BÁRBARA ESCRAVA, de Luís de Camões, é pura benevolência.

 

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