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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Naquele quarto

Conto destinado a um público adulto

 

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 Violência

 

Acordou.

Levianamente sorriu.
A seu lado sentiu a maciez dos cabelos que combinava, integralmente, com a doçura da personalidade da mulher prostrada a seu lado. 

No quarto, todo o cenário era caótico, combinando assim com as cortinas cor de fogo, um dia, no passado, da cor do amor.

Sentiu-se excitado. A lingerie dela, completamente rasgada, os lençóis que serviam de algemas, os objetos de cabedal, aquela pequena navalha, as garrafas de um vodka vulgar e os seus dildos. Não, ele não procurava nas prostitutas o que em casa podia ter. Pelo menos, assim o dizia. 

De pouco se recordava da noite anterior. Porém, para si, era inesquecível o prazer anal que ela lhe deu, ao penetrá-lo com os dildos.

As recordações impulsionaram o sangue no seu pénis que assim se reergueu louco de desejo. Masturbando-se, procurou a mão dela. Reparou que esta estava fria.

- "Bates-me uma ou enfio-te um murro nos cornos! Queres senti-lo dentro de ti não é, sua vadia?" - gritou.

Após estas palavras, dado não ter conseguido qualquer reação, procurou penetrá-la, num ato frio e desprovido de sentires, ficando frente a frente com o seu rosto.

Qualquer sentimento por ela nutrido foi refutado: os cabelos já não eram macios, ela já não era doce, nada era como antes. De repente, naquele quarto, fez-se sentir o vento que ecoou e levou as cortinas a bailar ao encontro das paredes de madeira, tomando como par, as manchas que não deviam fazer parte daquele cenário.

Agora tudo era claro.
Naquele jogo a dois, ao penetrá-lo profundamente, Maria possuída pelo álcool, não controlando as palavras, sobretudo as contidas há muitos anos, murmurou ao seu ouvido: - "Meu grande paneleiro! Não vales nada... Sente-me bem fundo dentro de ti." Assim, se vingou, na sua forma de pensar, das marcas pelas quais, na semana passada, foi obrigada a abusar da maquilhagem e a utilizar os óculos de sol escuros, comprados em Genebra, durante a noite, naquela festa transmitida num canal televisivo. Conseguiu passar na red carpet, disfarçando. Mas quantas vezes se esquecem as marcas psicológicas?
Ele, revoltado, desmontou o cenário, acorrentou-a com os lençóis à cama e cavalgou-a (assim falam tais "machos"), na posição de missionário. De novo, ela era sua propriedade, podendo ser agredida enquanto penetrada.

Mas Maria insistiu e deu continuidade às provocações (as verdades dos seus dias, das suas noites):

- "As minhas mamas recordam-te as da tua mãe, não é cínico? Por isso adoras chupar os meus mamilos. São as recordações de infância ou adolescência?...  Ela roubou-te a inocência! Já tu,...receias admitir que és bicha, como o teu primo Zé. E tanto o humilhas...".

Após estas palavras de Maria, nenhuma outra se fez ouvir.

 

A relação entre ambos sempre foi conflituosa, marcada pelo sexo, violência doméstica, a dependência monetária dela em relação a ele e o papel de "mulher objeto". Para tantas portuguesas, um modelo a seguir pelo que liam e viam nas revistas. Para ele, a boneca capaz de afirmar a sua virilidade e tornar agradáveis os eventos de negócios . Maria não tinha família. Enquanto casal, não tinham residência fixa e pautavam pelas aparências. Uma vez que ele pertencia a uma família tradicional da linha de Cascais, as festas de Jet7 eram de presença obrigatória.

 

Eis que agora ele está de frente ao rosto dela, verificando que ela não tem olhos nem mamilos. Também o hímen lhe foi cortado e lançado contra uma das paredes, ficando um esboço semelhante a uma mancha de tinta. Nunca uma navalha tinha sido tão útil para calar aquela que, pelo menos uma vez por semana, espancava ao murro e à bofetada. A sua "grande cabra" estava imóvel e desfigurada.

 

Ele, cheio de sangue, prostrado sobre ela continuava.
Teria esta sido esta a sua intenção? Como sair dali e esconder o óbvio? Como esquecer uma noite ainda fragmentada na sua memória, mas suficientemente relembrada para montar as peças?
Não sabia o que fazer. Talvez automutilar-se, para assim conseguir o perdão.
Por que razão ela falou da relação carnal que ele mantinha com a sua mãe? Ele era ainda tão novo!... Como terá descoberto? 
Lágrima nenhuma escorreu do seu rosto e o arrependimento não fazia parte dos seus sentimentos. Ali continuava prostrado sobre aquele corpo frio e hirto... O cheiro do corpo em decomposição não o incomodava.

Assim se fez noite para depois se fazer um novo dia.

 

Nervosamente, o toque da campainha fez-se sentir...

 

Reedição e adaptação do conto "Naquele quarto: Maria, João e o desamor", escrito por Paulo Vasco, em 10/06/2014, às 4h.28min

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