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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

O terço de Leonor

Talvez para adultos,

Nas entrelinhas, severas críticas à nossa sociedade.

 

Acabada de chegar, Leonor olhou para o altar da Igreja. Não o contemplou, tal era o seu sofrimento.

Da sua carteira, um terço destacou-se naquele lugar desprovido de cândidas sonoridades. De imediato, o apanhou do chão, agarrando-o com força, como se este fosse o seu único bem.

O calor trazia memórias e desejos adormecidos que acabava por reter na vasta imensidão das incertezas. Os raios de luz não só iluminavam os vitrais como avivavam também os filmes guardados nas mais diversas gavetas do cérebro de Leonor, ainda não organizadas e fechadas. Já havia, lá no meio do povo, naquela aldeia perdida entre rochas e campos verdejantes, quem louca a chamasse.

As suas mãos, calejadas, abriam fendas, a cada “Avé Maria”. Já os olhos, esses tinham perdido o brilho de outrora, encanto de tantos rapazes, junto à fonte do largo da sua pequena aldeia. Mas nem só o brilho do olhar se perdeu… A partida de um pedaço de si, quebrando a ordem natural da vida humana, travara as suas cordas vocais. O mundo deixara de o ser e as gentes perderam importância e significado.

A morte mantém-se uma incógnita para o ser humano. Todavia, como evitar a saudade? Como compreender que a sua filha, de apenas 18 anos, foi por ela ali encontrada , despojada de qualquer roupa, hirta, com um tom de pele tão estranho, fruto dos vários medicamentos que tomou e cujas caixas se encontravam, aleatoriamente, lançadas pelo chão do alpendre?
Uma morte ao Sol…

Sobre a mesa da cozinha, Rute Marlene deixou uma carta dirigida à mãe. Pouco se sabe sobre o conteúdo da mesma mas o essencial é óbvio: a Leonor atribuiu toda a responsabilidade dos seus atos.

- “A minha Rute Marlene diz ter nascido para ser famosa e viver um grande amor. Por isso, não a posso proibir de andar com aquele Sr. … Ai meu Deus, deixa-me benzer. Já estou a pecar!”- comentava com as comadres, sem qualquer malícia.
Todos pensavam tratar-se de uma daquelas paixões que passam como as aves migratórias que ninhos constroem junto ao telhado da sua casa. Na verdade, cedo se começaram a ouvir relatos deste e daquele sr. casado que disse o que afinal não disse, a respeito de terem encontrado Rute Marlene, então com 16 anos e meio, a fornicar frenéticamente, com Vicente, o novo homem lá da freguesia, dentro ou fora do carro, junto ao rio que um dia o sémen não levou.

Apertava o terço com maior força e devoção, com o decorrer do tempo que o seu pranto não levava, na tentativa de nele encontrar a salvação.
Ouviram-se passos na direção a Leonor.
Ela olhou: um homem louro, esbelto, com o charme dos 50 anos e que usava uma batina. Era Vicente – o padre da paróquia. Este, calmamente, aproximou-se daquela mãe e pausadamente disse-lhe, segredando ao ouvido:

- Por que sofres ou te castigas? A Rute Marlene estava grávida e quis poupar-te desse embaraço!
Segue a tua vida.
A tua filha não foi nem será a primeira.

Os passos de Vicente voltaram a adquirir ritmo e som, afastando-se, enquanto Leonor, paralisada pelo ódio e o choque das palavras, aquele terço aproximou do coração. Com maior devoção implorou a ajuda da Virgem Maria, acabando por partir a sua jóia que algum eco fez, no saltitar das peças, rumo a um ardente Vicente.
Ao olhar para trás, reparou que lá bem ao fundo, num canto escuro da Igreja, as mãos de Vicente percorriam as mamas de uma jovem que não conhecia, enquanto, em simultâneo, lhe beijava os mamilos.

Impávida, Leonor ausentou-se.
No povo, as suas palavras de nada adiantariam, não fosse ela mulher… Na porta lateral, ao olhar o céu, reparou na formação de trovoada. Ao longe, um forte e intenso relâmpago: a renovação?…

 

Guarda - dezembro de 2014

 

 

Paulo Vasco, em 23 de junho de 2014

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