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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Partidas… definitivas

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A viatura seguia a grande velocidade na auto-estrada. Era ainda noite mas no horizonte podia-se já perceber a penumbra de um novo dia. Arlindo recebera a chamada que não queria: o pai havia falecido nessa mesma noite, vítima de um ataque fulminante.

A pressa não tinha a ver com o pai, a quem já não podia valer, mas sim com a mãe, agora mais só, mesmo que estivessem lá as irmãs mais velhas. Durante quilómetros o causídico recordou-se dos longos e distantes dias passados com o pai por entre ovelhas e cabras, tufos de alecrim e rosmaninho, regatos e minas de água fresca e cristalina.

Lembrou-se das cerejeiras plantadas à volta da eira, do enxerto numa macieira brava ou da vindima e da jeropiga aveludada. O pai nunca estudara mas não era nenhum idiota. E era senhor de verbo fácil e escorreito. Na maioria com grande humor que agora reconhecia ter herdado.

Uma singela lágrima aflorou-lhe aos olhos mas rapidamente a reprimiu. Doí-lhe não ter tido tempo de cumprir a promessa que fizera ao pai de regressar à aldeia mais cedo… “Nunca prometas aquilo que sabes que não podes cumprir”, ouvira ele de um professor na faculdade.

- Como tinha razão o professor – desabafou.

O sol raiava já e começava a incomodá-lo seriamente. Por isso decidiu parar na estação de serviço que se aproximava. Sentado à mesa, beberricava o café de forma maquinal, pois o seu pensamento saltitava para lá das serras. Olhou o relógio de pulso e lembrou-se que Lídia àquela hora estaria quase a embarcar para Nova Iorque. Mais um revés na sua vida. Pegou no telemóvel e escreveu:

Adorava estar contigo hoje. Darmos o beijo que nunca demos. Abraçarmos como nunca o fizemos. E dizer-te só que te amo. Partes para jamais regressares, eu sei, mas serás sempre a tal… mulher. O meu pai também partiu esta noite mas numa outra viagem. Vou a caminho da minha aldeia para me despedir dele. Sê muito feliz. Tu mereces. Com amor. A.

Releu a mensagem, aqui e ali mudou alguns caracteres mal escritos. Achou-a todavia demasiado longa mas não retirou uma palavra. Carregou na tecla de “enviar” e aguardou a resposta. Logo de seguida pode ler “Entregue” no relatório que a operadora disponibilizava. Ergueu-se, pegou na chave preta e no casaco e dirigiu-se ao carro. Segundos depois já estava outra vez na auto-estrada.

No Aeroporto Lídia lia um livro no seu tablet quando sentiu o seu telemóvel a tremer.

- Publicidade – disse para consigo e manteve-se concentrada na leitura.

De vez em quando erguia os olhos para perceber se a porta de embarque já se encontrava aberta. O telemóvel continuava a tremer. Pegou-lhe para o desligar quando percebeu que tinha uma mensagem de Arlindo. Não a leu porque a porta de embarque abrira entretanto. Aproximou-se decidida carregando uma mala pequena de rodas, mas aprumou-se atrás de diversas pessoas que se aglomeravam à sua frente. Foi a altura de ler a mensagem.

 

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