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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Regresso!

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A multidão de gente anónima apertava-se para verem os novos heróis. Quando saíram de mãos dadas, Lídia e Arlindo surgiram rodeados de forte escolta policial. Em passo rápido, entraram numa carrinha descaracterizada e nem chegaram a agradecer os aplausos com que a multidão presente os agraciou, fugindo daquela zona a alta velocidade. Atrás da carrinha outros carros e motorizadas, a maioria de televisões que pretendiam um exclusivo.

No interior do veículo Lídia deitou finalmente a cabeça no ombro de Arlindo e fechou os olhos. A cidade estava insuportável no que respeitava ao trânsito mas ainda assim o condutor conseguiu, com grande mestria, tricotar por entre os outros automóveis sempre em velocidade acima do que seria permitido. Pelo espelho retrovisor o condutor percebeu que somente dois artistas de duas rodas ainda o perseguiam. Seria por isso necessário uma manobra arriscada de forma a despistar os jornalistas. Assim que pode e na frente de um porta-contentores saiu da estrada optando por ruas secundárias. Fora o suficiente!

Finalmente o pendura falou:

- Desculpem não termos sido apresentados convenientemente mas chamo-me José Ramos e sou um agente policial ao vosso inteiro dispor. Calculo que os últimos tempos não tenham sido fáceis… mas creio que tudo terá tendência a normalizar…

O casal sentia-se extenuado e deixou que o agente falasse. Este continuou:

- Agora os jornais, portugueses e estrangeiros, as televisões e outros meios de comunicação social não vos vão largar. Depois tudo se esquecerá, mas até lá…

O agente olhou para trás e percebeu que ambos dormiam… Falara para o boneco… Mas tinha de os levar para algum lugar, só que não sabia onde. Por fim ordenou ao condutor:

- Assim que encontrares um sítio sossegado paras, que eu tenho de saber para onde levo estas alminhas.

Quando a viatura se imobilizou, José tocou ao de leve em Arlindo, acordando-o.

- Desculpe sôtor mas preciso saber onde é que vos deixo?

O beirão agitou-se e com calma acordou também Lídia. Esta esfregou os olhos e quase se assustou com o aspecto gordo do agente.

- Amor, é preciso saber para onde vamos? Tens alguma ideia?

Lídia tinha raciocínio rápido e pediu:

- Senhor agente empreste-me o seu telemóvel.

O policia entregou-o e Lídia ligou um número. Aguardou:

- Amélia? Sou eu a Lídia…

- Sôtora? Que bom ouvi-la… Já sei que regressou sã e salva! Estou tão feliz…

- Agora sou a Lídia… Mas necessito de um favor ou melhor de um sítio onde ficar por uns dias sem ser incomodada. Achas que consegues?

- Claro… sô… Lídia! O meu cunhado está no estrangeiro vai para muitos anos e raramente cá vem. Tem um andar fechado mas equipado com tudo… Se quiser pode ir para lá…

- Óptimo Amélia, é perfeito. Vou passar o telefone ao agente e dás-lhe a morada, pode ser? Um beijo grande…

Quando entraram em casa era já tarde. A polícia andara às voltas de forma a terem a certeza que não eram seguidos. O andar era espaçoso, sobriamente mobilado mas equipado com tudo. Faltava obviamente alguma roupa para ambos.

Todavia Amélia pensara em tudo e encontraram no quarto algumas roupas de homem e de mulher. Curiosamente as femininas já haviam sido de Lídia que cansada de as usar as oferecera em tempos à secretária.

Na cozinha encontraram um papel escrito com uma letra perfeita e que Lídia conhecia de sobra. Dizia: “No forno há um tabuleiro com empadão”, no frigorífico leite. Durmam bem, mas portem-se mal!”

Lídia pegou no papel e mostrou-o a Arlindo e pela primeira vez em muito tempo ambos sorriram com vontade. Ela chegou-se a ele e perguntou:

- Que vai ser da gente, amanhã?

Arlindo cingiu-a pela cintura, beijou-a ternamente e naquele seu humor tão costumado, observou:

- Amanhã? Bom amanhã vou comprar um telemóvel…

 

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