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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

O retrato!

Ergeu o olhar para o lado oposto da mesa mas a cadeira, tantos anos ocupada, encontrava-se agora vazia. Cinquenta e cinco anos em conjunto! Mais de meio século. E os últimos anos haviam sido de suplício, luta permanente contra uma doença que teimava em evoluir drasticamente.

Lembrou-se da promessa entre ambos, muitos anos antes de qualquer enfermidade...

- Nunca me leves para um lar, quero morrer na minha cama   - pedira Amélia um dia.

Ernesto prometera que assim faria. E fez...

- Avô não comes?

A neta agitou-lhe a mão esquerda acordando-o. Na mão direita a colher da sopa poisada no prato enquanto os pensamentos voavam.

- Sim minha querida, desculpa estava distraído.

O avô fora sempre um exemplo para toda a família. A valentia, a corajem e a tenacidade haviam feito dele uma pessoa admirável e admirada. E a doença de Amélia viera mostrar quão forte era aquele homem.

- E agora pai, vai viver connosco? - perguntou a filha mais velha.

O velho recostou-se colocou as mãos em cima da mesa e como de uma sentença se tratasse, declarou:

- Meus filhos... A minha vida sem a vossa mãe jamais será a mesma. Por enquanto vou descansar dos anos que ela involuntariamente me brindou.

Uma lágrima correu pela ruga mais funda que Ernesto nem se preocupou em esconder. Continuou:

- Depois, se tiver saúde e alguma genica, vou visitar uns amigos que tenho longe...

- Onde meu pai?

- Não interessa. Eu sei onde eles estão e daqui a uns tempos vou lá passar um tempo.

- E vai sozinho?

- Achas que tenho medo? Mas continuando... antes de tudo isso vou deixar as coisas todas arranjadas para vocês em termos de partilhas.

- Oh pai deixe-se disso... Ainda ontem sepultámos a mãe...

- Minha filha eu sei o que faço, acredita. Não tenhas medo... Mas as coisas são para ser resolvidas quanto antes.

A neta levantou-se abraçou o avô e finalmente disse inocentemente:

- Fico contente por ires viajar. Sempre gostaste disso.

O avô acariciou os cabelos sedosos da neta e exclamou:

- Viajar é sempre bom! - e esboçou um sorriso enquanto olhava o retrato da mulher quando nova, pendurado na parede do fundo.

 

 

 

Em passo de dança - "Ne me quites pas"

Acordou tarde. Não era costume. Mas Verónica saíra de sua casa, pelas 6 da manhã. Ainda arrumou a cozinha, tomou banho e só depois se deitou.

Adorara a noite. Jamais nos seus 36 anos de vida tivera uma assim. Filipe não era um melómano, mas adorava música e aquela mulher puxara por ele. Easy Livin dos Uriah Heep, Everyday dos Slade, Grand Hotel dos Procol Harum e tantas, tantas outras músicas que ouviram durante toda noite. Parecia uma criança a quem haviam dado um brinquedo novo. Sentia-se feliz por alguém partilhar consigo os mesmos gostos musicais.

Era um daqueles sábados tristes, cinzentos, envoltos em nevoeiro e de um frio apertado. Levantou-se devagar e foi ligar a máquina de café. Enquanto andava num afã para se arranjar e tomar o pequeno-almoço, tocou o telemóvel. Correu para ele, olhou o visor e em vez de um nome, surgia um número. Que ele conhecia… Parou para pensar:

- Atendo, não atendo…

Carregou no verde e falou:

- Bom dia, Carla…

- Olá, bom dia. Hum! Ainda guardas o meu número no teu telemóvel? - Assumiu.

- Não, por acaso já apaguei. Mas sabes eu tenho memória e ainda recordo o teu número. Bom, mas que queres tu?

- Ena! Não precisas de ser assim tão… tão.. ríspido comigo.

- Desculpa Carla, mas deite-me muito tarde e dormi pouco. Estou um tudo nada rabugento, só isso.

- Tadinho, andámos na rambóia…

- Pois… Não sei o que isso te interessa, mas diz lá o que queres.

"Filipe jamais esqueceria aquela tarde. Regressara mais cedo de Barcelona para estar com Carla, mas esta já se encontrava acompanhada. Ainda por cima na sua casa e na sua cama! Nunca mais lhe perdoaria, nunca! Nessa tarde quando apanhou Carla com um colega, em poses menos próprias, disse apenas:

- Tens uma hora para saíres e levares as tuas coisas. Já agora, deixa as chaves do apartamento em cima da mesa.

Fechou a porta atrás de si e abandonou o edifício. Uma hora mais tarde regressou e encontrou as chaves na mesa e o quarto arrumado. Aqui, retirou os lençóis e colocou-os na máquina de lavar roupa. Abriu as janelas, de forma a que o perfume de Carla desaparecesse. Dormiu no sofá. Nesse mesmo dia acertou consigo: "Nunca mais acredito numa mulher!"

Era fácil dizer, todavia muito mais difícil obedecer.

- Depois daquela tarde, nunca mais falámos… - acrescentou Carla.

- Sim e depois? – Filipe principiara a perder a paciência.

- Acho, que te devo um pedido de desculpas.

- A mim não me deves rigorosamente nada! – Respondeu secamente.

Carla percebeu pelo tom de voz, que Filipe ainda se sentia magoado. Mas que coisa a dele de ser tão cavalheiro, impecável, certinho. Não podia ter ficado mais uma hora em Barcelona e nada daquilo aconteceria. Insistiu:

- Reconheço que não fui correcta contigo. Tu não merecias que eu te tratasse daquela maneira… ordinária!

Filipe percebeu que Carla pretendia mais:

- Sinto que me queres dizer qualquer coisa que ainda não disseste…

- Por favor, Filipe. “Ne me quites pas!”

Em passo de dança - "Wish you were here"

Já raiava o dia quando abriu a porta do prédio. Subiu ao 6º andar e meteu a chave à porta. Rodou duas vezes e entrou finalmente em casa. Ligou a luz que iluminou profusamente uma entrada bem mobilada. Diversos quadros modernos, uma cómoda herança de família e um candeeiro de pé para além dos projectores que emanavam do tecto falso. Dirigiu-se ao quarto e despiu o casaco comprido, cinza. Descalçou os sapatos de salto alto e desceu ao seu metro e setenta. Sentou-se à beira da cama e foi descalçando as meias pretas. O olhar estava vidrado em nenhures. No seu pensamento apenas a noite que agora terminava. Jamais pensara que era capaz de uma noite assim. Ela, Verónica de Assis Moreno, filha de um oficial do exército já aposentado e de uma professora de inglês, também reformada. A melhor aluna da faculdade de Economia, e gestora de uma multinacional em expansão… Ainda lidava mal com a morte do marido. Mãe de uma criança de sete anos, de férias com os avós maternos, deixara-se, num segundo fatídico, inundar por uma paixão que nunca sentira por ninguém… Mas Filipe parecia ser um homem diferente. Talvez não o fosse. Mas ela queria acreditar que sim. Que era! Pelo menos fora-o, nessa noite.

"O jantar feito e servido por ele. Ela ajudara-o obviamente, enquanto ouviam Alchemy de Dire Straits. Mas ele encarregara-se da parte nobre. Por fim, as conversas, as palavras ditas quase em surdina. A graça que ele mostrava em falar de certos episódios da sua vida. Filipe não era um homem belo, mas tinha uma postura atraente. Humilde e sincero, falava pouco de si e mais na família perdida lá para Trás os Montes. E ela ouvia e ria como já não se lembrava de rir. E chorou quando ele lhe pediu para mostrar a fotografia de Frederico, o filho."

Estiveram horas e horas naquele mundo de palavras e sentimentos. As mãos entrelaçadas nas dele, sentidos ao rubro ou à flor da pele, nem ela sabia já. A música continuava a tocar ininterruptamente mas em volume baixo. E falaram também das canções que gostavam, das bandas que ouviam, quase sempre coincidentes. Tanta coisa em comum…

Verónica estava nua. Dirigiu-se ao chuveiro e deixou que a água tépida a molhasse indefinidamente. Finalmente tomou banho e saiu enrolada num roupão turco cor de rosa. Voltou a sentar-se e regressaram as lembranças dessa noite.

"O digestivo bebido em frente da lareira que acendera de propósito. Um dossier repleto de bilhetes de concertos ao vivo, que Filipe fora ver. E começara muito cedo com os The Police no estádio do Belenenses em 1980 e acabando já com os bilhetes para o Rock’n Rio de 2012 para ver The Boss. E a cada espectáculo Filipe associava uma estória, uma graça."

Sentiu vontade de se vestir e voltar a estar com ele. Fora um cavalheiro. "Quando deram por isso, eram altas horas da madrugada. Filipe levantou-se do sofá e pediu a Verónica que aguardasse. Ela ouvia na cozinha novamente loiça a ser mexida. Quando de repente olhou para Filipe, este carregava um tabuleiro com ovos mexidos e duas canecas de chocolate quente. Ela quase desmaiou…" Precisava saber e perguntou-lhe porquê. Porque a tratava assim? Ele apenas respondeu que ambos gostavam das mesmas músicas e nunca conhecera ninguém assim, com o mesmo gosto dele.

Verónica deitou-se finalmente, nua! E a pensar em Pink Floyd murmurou:

“Wish you were here”

 

Publicado a 1ª vez aqui

Perspicácia!

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O caminho entre o cemitério e casa foi feito lentamente, como se houvesse uma força a empurrá-los para longe. Lucinda, agora viúva, pendurara-se no braço de uma das filhas. Lídia agarrara-se carinhosamente ao braço de Arlindo. Pela primeira vez sentia o calor do homem que nascera na aldeia e partira cedo para a cidade e com quem desejava partilhar o futuro.

A mãe de negro vestida fixou o olhar no empedrado e desabafou baixinho:

- Que vai ser de mim sem o meu Abílio... o que vai ser de mim...

Mas no mesmo instante parou, virou-se para Arlindo e perguntou:

- Quantos dias ficas cá?

A pergunta fazia naturalmente sentido para a mãe mas não para o filho. A resposta teria de ser dada com pinças de forma a não molestar ainda mais a antecessora. Como era seu hábito ficou a pensar na resposta para depois avançar:

- Mãe... Lamento mas tenho de ir embora ainda hoje. Temos ambos de ir trabalhar - e olhando para a namorada, esboçou um leve sorriso. Lídia devolveu o gesto.

- Mas já? Não ficas dia nenhum?

- Eu venho cá brevemente... Agora que está sem o pai... virei cá mais vezes.

Uma torrente de choro sobreveio à mãe. Finalmente:

- O que fazes por lá, filho?

Arlindo nunca falara aos pais do curso superior recentemente acabado. Gostaria de ter dito ao pai em primeiro, mas o destino ou fosse lá o que fosse havia-o arrebatado primeiro. Respirou fundo e respondeu:

- Sou jurista!

- Isso é o quê?

Não era seu hábito dizê-lo mas compreendeu que só assim a mãe o entenderia.

- Sou advogado...

Lucinda parou subitamente e olhando para o filho de forma firme, perguntou:

- Tu és doutor?

E crescendo com a  voz repetiu:

- Tu és doutor?

Arlindo tremeu um pouco mas acabou por responder:

- Mãe... doutor não é profissão...

Lucinda deixou por breves momentos de o ouvir e declarou:

- O teu pai tinha razão... - e após um mui breve silêncio, continuou - sempre disse que haverias de ser alguém. O teu pai tinha razão...

O filho olhou a namorada e encolheu os ombros. Nada mais podia dizer para esclarecer a mãe. O melhor seria partir e o mais depressa possível. Já perto do seu carro começou a despedir-se das irmãs e da mãe:

- Mãe, tenho de ir... Daqui a umas semanas volto cá, de certeza! Ou quer ir comigo?

- Não, não... eu fico cá! Tenho aqui muita companhia... Só te peço que não estejas tanto tempo sem cá vir...

- Prometo mãe. Regresso muito em breve.

Lídia despediu-se também e meteu-se no carro. Este arrancou devagar e subiu a serra íngreme até à povoação seguinte onde pararam para almoçar no restaurante que Arlindo experimentara no dia anterior. Na praça o mesmo idoso agarrado à velha bengala sentado no velho lugar. Parada a viatura, Arlindo passou pelo homem e cumprimentou:

- Boa tarde ti' Albino...

- B'tarde... - este levantou os olhos para perceber quem o cumprimentava assim. Reconheceu o cliente da filha do dia anterior e lançou uma singela farpa:

- Hum! Reparo que gostou do restaurante?

- Sim, sim gostei...

- Percebe-se...

- Como?

- Até já arranjou companhia... feminina! - e apontou Lídia com a bengala.

Aquele idoso era uma caixa de surpresas. Arlindo esboçou um sorriso e respondeu à brincadeira:

- Estava presa ali na aldeia ao lado e fui lá resgatá-la...

O velho ergueu a bengala na direcção do firmamento, deixou-a cair a ponta no chão e por fim concluiu:

- Cheira-me que foi mais o contrário...

- Não percebi...

- Não? Pergunte ao seu olhar que ele responde...

 

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Em passo de dança - "Romeo and Juliet"

Tamborilava os dedos no volante ao som de Sultans of Swing, dos Dire Straits. Uma música que ele simplesmente adorava e que estava a tocar naquele instante na Rádio Nostalgia. O trânsito naquela manhã desenhava-se caótico. Filipe experiente e conhecedor logo se lembrou:  “Deve ser algum acidente”. E como costumava dizer para si e para os outros, o que não tem solução está solucionado por si, não se preocupou.

À sua volta as pessoas dentro dos carros reagiam de forma diversa. Atrás uma senhora que já passara o meio século acabava a sua maquilhagem, aproveitando o espelho do pára-sol. Na sua frente uma carrinha fechada, impedia de ver o quer que fosse para a frente. À esquerda evoluía um passeio vazio e finalmente à direita, uma jovem mulher olhava para ele de forma espantada. E sorria. Percebeu que ela reparava naquela sua postura alegre e descontraída, tendo em conta a manhã complicada.

O trânsito palmilhou cinco curtíssimos metros. Devagar. Ele voltou a olhar para a jovem, no veículo ao seu lado, que continuava a olhá-lo com o mesmo sorriso. De repente o vidro da janela dela baixou e ele fez o mesmo ao vidro do lado contrário:

- Bom dia, desculpe incomodá-lo. Não é fácil alguém com este trânsito estar tão feliz assim…

- Bom dia, pois tem razão mas que posso eu fazer? Não melhoro o trânsito por estar aborrecido e assim sempre vou gozando com a música.

- O que estava a ouvir?

- Dire Straits.

- Também gosto. Muito bom dia.

E fechou o vidro.

Filipe nem pôde responder. Fechou também a janela e ficou a ouvir outra música. Agora escutava Creedence Clearwater Revival em Bad Moon Rising.

Um atropelamento fora a origem de tamanho engarrafamento. Passado o local do sinistro, o trânsito fluiu com normalidade. Chegou ligeiramente atrasado ao trabalho e à reunião.

Curiosamente, não se esquecera da jovem que se admirara com o seu tamborilar de dedos. Recordou-lhe as feições: Olhos claros (não conseguira ver a cor!), lábios finos bem pintados, rosto magro sem ser esquelético. Bonita, enfim! Jamais a veria, mas fora curioso aquele encontro matinal.

Decorreram duas semanas e Filipe esquecera-se por completo da jovem.

Numa sexta feira decidiu ir ao cinema, sozinho. O abandono a que fora votado por Carla deixara-o livre de sentimentos, mas também de companhia. Mas antes do cinema havia que comprar algumas coisas para casa. Optou então pelo El Corte Inglês onde tinha o cinema e supermercado. Aqui carregou o carro com compras e dirigiu-se à caixa. À sua frente uma pessoa do sexo feminino, aguardava também a sua vez.  Filipe observou-a por detrás. Trazia vestido um casaco comprido de cor cinza, calçava sapatos de salto muito alto e os cabelos caíam-lhe nas costas de forma uniforme.

De repente a pessoa voltou-se para trás e Filipe reconheceu a jovem que se metera consigo, na outra manhã. Todavia receoso que estivesse a fazer alguma confusão não disse nada. Ela olhou-o. Teve a mesma sensação. A mesma reacção. Todavia ficaram ambos em silêncio.

Mas Filipe depressa magicou um plano. Pegou no telemóvel e simulou que estivesse a receber uma chamada:

- Olá companheiro…

- …

- Estou no ElCI, ando às compras e depois vou ao cinema. Queres vir ter comigo?

- …

- Jantamos depois do cinema e vamos para minha casa ouvir umas músicas. O que é que achas?

- …

- Sei, lá… Dire Straits, diz-te alguma coisa?

Nesse momento a jovem virou-se e olhando-o nos olhos percebeu que Filipe era o homem daquela estranha manhã. Aproximou-se serenamente do homem e sem qualquer inibição beijou-o calorosamente, à frente de toda a gente.

A menina da caixa atrapalhada, disse:

- Podiam-se chegar à frente, se fizerem favor.

Mas eles não chegaram.

Deixaram ali mesmo as compras e partiram apressados para casa dele, para ouvirem “Romeo and Juliet”.

 

 

Publicado a primeira vez em 21/04/2012, aqui.

Na aldeia

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O relógio digital do carro marcava meio-dia, talvez daí a razão da fome que sentia. Como faltavam poucos quilómetros para chegar à aldeia achou melhor parar para comer pois, certamente, ninguém da família contaria com ele para almoçar.

Desde que saíra da estação de serviço que o seu pensamento voava por entre as horas passadas com Lídia. A última mensagem, da qual não obtivera qualquer resposta, tivera o condão de despoletar vagas de recordações com aquela que poderia ter sido a sua namorada. Mas a imbecil da sua ex estragara tudo. E desde esse instante nunca mais Lídia o olhou da mesma maneira… E as perguntas martelavam-lhe o pensamento: deveria ter arranjado uma desculpa? E quando ela soubesse a verdade?

Aproximou-se duma povoação, parou no centro e olhou em redor um busca de um lugar para comer. Não viu nada que lhe desse essa indicação mas descobriu um idoso apoiado a uma bengala puída, sentado numa pedra. Foi a ele que se dirigiu:

- Boa tarde, amigo.

- B’tarde!

- Sabe onde posso encontrar um restaurante para almoçar?

O ancião mediu-o de alto a baixo e após uns segundos levantou a bengala e apontou uma rua estreita, acrescentando:

- Aí em frente tem uma casa à direita que serve comida. Experimente!

- E é boa?

- Eu como lá todos os dias…

Arlindo estranhou que um idoso fosse todos os dias ao restaurante e por isso espantou-se:

- Todos os dias?

- Sim… O restaurante é da minha filha!

Arlindo riu com a sua idiotice e agradeceu.

Após o repasto, que lhe surgiu melhor do que seria de supor, regressou à estrada. Finalmente viu a aldeia no fundo do vale repleto de nacos de vegetação verde. Devagar negociou as curvas perigosas a baixa velocidade. Quando entrou no povoado este parecia estranhamente vazio. Atravessou as ruas estreitas e empedradas até ao lado oposto onde se situava a casa da mãe e aí parou o seu carro.

Olhou à sua volta e percebeu que nada mudara, rigorosamente nada. Foi como se tivesse saído dali no dia anterior. Calculava que o corpo do pai estaria na velha e pequena capela de S. João, que só se abria para a função de capela mortuária. Mas não se sentia preparado para o que possivelmente iria ver. Carpideiras convictas mãe e irmãs, assim que o vissem iriam descarregar torrente de lágrimas. Respirou fundo!

Passou por diversos pessoas a quem cumprimentou, como era hábito e percebendo que ficavam a falar de si nas suas costas. Finalmente a capela. À porta, ninguém.

Ao entrar sentiu logo o cheiro nauseabundo das flores e da cera das velas que davam ao local uma luz mortiça. No meio da pequena sala o caixão contendo o féretro do pai. Finalmente os olhos habituaram-se à quase escuridão e aproximou-se da mãe que descobriu a um canto da sala enterrada num sofá.

Tal como previra, mãe e irmãs quando o viram irromperam numa espécie de coro de lágrimas que ele não gostava, mas assumia ser mais ou menos normal.

- O teu pai morreu sem saber nada de ti… - acusava a mãe.

- O pai, Arlindo… o pai morreu – chorava uma das irmãs enquanto o cumprimentava com dois beijos molhados.

Sentia-se triste pelo pai obviamente mas odiava aquele ambiente tétrico e doentio. À volta da sala mais mulheres pareciam rezar de terço em punho. Outras apenas olhavam para o recém-chegado e comentavam em surdina…

Arlindo nunca fora um homem de fé não obstante os pais o terem ensinado o básico do catolicismo. Sentou-se numa cadeira ao lado da mãe e foi respondendo ao interrogatório familiar que ele sabia natural… O tempo naquele lugar passava devagar. De vez em quando entrava mais uma mulher e repetia-se o ritual. Choros e gritos que Arlindo assumia como sendo prova de qualquer coisa. Ainda não sabia bem do quê…

Ali esteve horas agradecendo os cumprimentos de pêsames a quem o cumprimentava e viu quase toda a aldeia passar por aquele espaço homenageando o seu pai. Já era tarde quando um dos cunhados, um homem rude e de fracas maneiras foi ter com Arlindo:

- Quer ir comer qualquer coisa? Está aí há horas…

Era óbvio que precisava sair dali… Aproveitou então o convite e disse à mãe:

- Vou ser se como qualquer coisa. Quer que lhe traga algo?

- Não filho, não tenho fome - choramingava a mãe.

A noite tomara conta da aldeia e uma brisa fria soprava vindo da serra. O pequeno adro estava agora repleto de homens que conversavam em tom baixo. Mas uma voz sobressaiu de todas as outras. E essa voz perguntava:

- Onde posso encontrar o Arlindo?

Este voltou-se e só soube exclamar:

- Lídia!

 

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