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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Vi e sente!

Vi o teu crescer lento,

tão lento que nem parecias vivo.

Vi os medos por ti elevarem-se,

a dramas e tragédias sem razão.

 

Vi o ventre de tua mãe ficar redondo,

qual fruta verde e vermelha.

Vi a alegria dos teus movimentos,

como se fosses um irrequieto.

 

Vi a azáfama em teu redor

como se fosses o único no mundo.

Vi a tua forma franzina mas serena,

oferecendo finalmente calma e alegria.

 

Vicente! Isto tudo eu vi

e senti!

 

 

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O retrato!

Ergeu o olhar para o lado oposto da mesa mas a cadeira, tantos anos ocupada, encontrava-se agora vazia. Cinquenta e cinco anos em conjunto! Mais de meio século. E os últimos anos haviam sido de suplício, luta permanente contra uma doença que teimava em evoluir drasticamente.

Lembrou-se da promessa entre ambos, muitos anos antes de qualquer enfermidade...

- Nunca me leves para um lar, quero morrer na minha cama   - pedira Amélia um dia.

Ernesto prometera que assim faria. E fez...

- Avô não comes?

A neta agitou-lhe a mão esquerda acordando-o. Na mão direita a colher da sopa poisada no prato enquanto os pensamentos voavam.

- Sim minha querida, desculpa estava distraído.

O avô fora sempre um exemplo para toda a família. A valentia, a corajem e a tenacidade haviam feito dele uma pessoa admirável e admirada. E a doença de Amélia viera mostrar quão forte era aquele homem.

- E agora pai, vai viver connosco? - perguntou a filha mais velha.

O velho recostou-se colocou as mãos em cima da mesa e como de uma sentença se tratasse, declarou:

- Meus filhos... A minha vida sem a vossa mãe jamais será a mesma. Por enquanto vou descansar dos anos que ela involuntariamente me brindou.

Uma lágrima correu pela ruga mais funda que Ernesto nem se preocupou em esconder. Continuou:

- Depois, se tiver saúde e alguma genica, vou visitar uns amigos que tenho longe...

- Onde meu pai?

- Não interessa. Eu sei onde eles estão e daqui a uns tempos vou lá passar um tempo.

- E vai sozinho?

- Achas que tenho medo? Mas continuando... antes de tudo isso vou deixar as coisas todas arranjadas para vocês em termos de partilhas.

- Oh pai deixe-se disso... Ainda ontem sepultámos a mãe...

- Minha filha eu sei o que faço, acredita. Não tenhas medo... Mas as coisas são para ser resolvidas quanto antes.

A neta levantou-se abraçou o avô e finalmente disse inocentemente:

- Fico contente por ires viajar. Sempre gostaste disso.

O avô acariciou os cabelos sedosos da neta e exclamou:

- Viajar é sempre bom! - e esboçou um sorriso enquanto olhava o retrato da mulher quando nova, pendurado na parede do fundo.

 

 

 

Recordações e lembranças

Recordo-me dos tempos idos,

Dos tempos sem tempo.

Lembro-me dos dias tristes,

E das amarguras vãs.

 

Recordo-me de alegrias fugazes,

E sonhos longamente perdidos.

Lembro-me das noites brancas,

E de amores sentidos e amados.

 

Recordo-me das faces claras,

Dos sorrisos e das carícias.

Lembro-me das figuras simples,

Mas serenas e amigas.

 

Recordo-me de não ser,

O que sempre desejei.

Lembro-me de querer  

O que nunca pude.

 

Recordo-me que o amor,

Foi então a chave de tudo.

Lembro-me que amar

Foi o cerrar de um ciclo.

 

O que será que ainda me resta?

 

 

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Confissão

Ela olhava-o com aquela ternura que o meio século de casamento obriga. Os olhos dele estavam fixos em lugar nenhum. Sem expressão, frios, longínquos.

Sentado num velho sofá tinha uma manta a aconchegar-lhe as pernas inertes. Os sucessivos AVC's haviam-no atirado para aquele marasmo e imobilidade.

Sentada à sua frente, a mulher passava a colher numa espécie de papa que lhe punha na boca e que ele engolia, provavelmente sem saber.

- O que eu não dava homem para ouvir de ti uma palavra. Uma só que fosse.

E continuava a passar a colher na papa.

- Tu que eras tão tagarela, tão falador... que me disseste tantas vezes que me amavas...

Meteu-lhe uma colher repleta na boca.

- Não sei se me ouves ou não. Os médicos dizem que não. Estou a falar para ti como se estivesse a falar para mim.

Introduziu a segunda colher de papa.

- Ao fim de todos estes anos só agora sou capaz de te dizer que te amo. E também sei que gostarias de me ouvir dizer isto.

Baixou a cabeça para o prato de papa, que continuava a mexer.

Por isso não viu uma simples lágrima cair no regaço do homem.

 

Serenamente... explicado!

... Retalho anterior

 

O telefone à sua frente tocou. Ergueu o olhar para ver quem era e leu o nome de Amélia. Premiu o botão de voz alta e respondeu:

- Diga Amélia.

- Doutora… tem aqui… uma visita…

- Uma visita? Quem é?

- A pessoa pede para não dizer quem é… Só quer falar consigo…

- É trabalho?

A porta abriu-se de supetão e Arlindo irrompeu pelo gabinete.

- Não, não é trabalho…

Lídia ergueu-se furiosa da sua cadeira, passou pelo homem e dirigiu-se à secretária:

- Amélia... chame-me a segurança, se fizer favor…

Arlindo exibia uma calma e uma serenidade invulgares. Aproximou-se da porta e avisou Amélia:

- Deixe estar que saio já! Não necessita incomodar o meu colega.

Depois encerrou a porta. Lídia teimou em aceder à saída mas com ele na frente percebeu que não conseguia levar a sua avante. Regressou ao lugar naquele ar autoritário como era conhecida na empresa e voltando para os papéis, observou:

- Que tem o senhor para me dizer que eu não saiba já?

Soltando uma gargalhada sonora, Arlindo seduziu:

- Ainda és mais bonita quando estás zangada!

A mulher percebeu que a batalha estava perdida. Aquele homem tinha o condão de a desconcertar. Talvez pela paz que dele irradiava. Ou seria ele um grande actor? Fosse como fosse, haviam passado seis meses desde que ela o pusera fora do seu apartamento naquela célebre tarde de ano novo.

Bastara na altura uma simples frase para tudo se estragar… E ela recordava-se como tivesse sido naquele instante. E ao invés do que seria de supor, Arlindo partira de casa dela sem fazer qualquer intenção em esclarecer o mal-entendido. Percebera que Lídia estava fora de si e aguardou que o tempo aplacasse a fúria da bonita gestora. Mesmo após a recepção daquele enorme ramo de rosas vermelhas quase no final de Fevereiro, no dia dos seus anos, com a frase: “Há quem veja espinhos nas rosas, eu vejo rosas nos espinhos. A.”, Lídia não tentou reactivar a amizade.

Mas ora era chegado o tempo de esclarecer, finalmente:

- Deixa-te que palavreado… Diz-me ao que vens que o meu tempo é caro – recostou-se na cadeira e esperou que o antagonista falasse.

Arlindo vestia uma roupa pouco formal e de mãos nos bolsos, virou as costas à amiga, passeou livremente pelo imenso gabinete e declarou:

- Faz este ano dez anos… A Marinha havia-me dado muita coisa mas não me abrira os olhos para as mulheres. Numa unidade conheci Jessica. Era enfermeira, bonita, charmosa e muito, muito atrevida. Conhecemo-nos no bar do hospital. Dali a poucos dias saíamos a primeira vez e dois meses depois estávamos casados. Nunca tive verdadeira consciência do passo que dera. De tal maneira que nem à família contei que havia casado. E ainda bem… Um dia fui destacado para uma corveta que partiu três meses para os Açores. E ela cá sozinha… Quando regressei ela estava grávida e não era de mim! Nessa mesma noite parti e nunca mais soube nada dela. Mudei de número de telemóvel e apenas um amigo em comum sabia disso. O mesmo que lhe deu o número naquele dia. Juridicamente sou um homem casado mas na realidade sou solteiro faz muito tempo.

Lídia parecia não acreditar numa palavra dele. Já fora demasiadas vezes ludibriada. Quando ele se calou, devolveu:

- Porque é que vieste aqui explicar essa história de faca e alguidar? Acreditas mesmo que vou nessa desculpa?

Ele parecia preparado para a pergunta dela:

- Eu sei que nunca mais vais acreditar em mim… eu sei… Talvez seja por isto que as mulheres são tantas vezes enganadas…

- Porquê?

- Porque não sabem lidar com a verdade… Preferem muitas vezes a mentira… Dói menos!

Lídia deu uma palmada violenta nos papéis que tinha em cima da mesa e ordenou:

- Sai daqui, já!

Pacatamente o segurança dirigiu-se à saída do gabinete, rodou a maçaneta, escancarou a porta e quando atravessou esta disse em tom sonoro para que todos os do lado de fora ouvissem:

- Sim querida eu também te amo!

Amélia baixou a cabeça e riu baixinho.

 

Retalho seguinte...

Luto de mulher

Uma história real.

Uma das páginas do livro da minha vida, como professor e diretor de turma, sem referências específicas e concretas, por forma a proteger a identidade dos ainda, menores.

 

Choro-te de Paulo Vasco

 "Choro-te" de Paulo Vasco Pereira

 

Uma vida, um amor e uma história cessaram. Desconheço o futuro do casal que apenas separado foi na urna e nos túmulos. No seu futuro, a pretensão de uma união eterna, formalizada nos papéis e rituais da igreja que terminam numa festa, que dizem inesquecível: o casamento. Este, não passou de um sonho, à semelhança de tantos outros: impossível e trágico. 

 

A vida, essa mão de incógnitas que nos mantém erguidos por caminhos cujos objectivos finais desconhecemos, presenteia-nos com alegrias e tristezas, quantas vezes num ápice, nos momentos mais inesperados e inauditos. Eles, na “flor da idade”, foram presenteados com a morte trágica, nua, cruel…Os seus órgãos esmagados, em pedaços, naquele acidente, naquele dia longo, aparentemente calmo, suave e doce, até ao momento da fusão das almas. No outro plano, numa outra dimensão, a real, o sofrimento e a eterna saudade. Projectos, idílios e o forte pronúncio daquele grito que se fez ouvir, no momento de dar a saber um final inesperado, num mar de sonhos que dizima quem ama e gerou. Agora, nos momentos de dor, estes em vão e sem forças procuram resistir. Dificilmente compreendem que apenas o tempo pode diminuir a saudade e a dor; se possível for.

 

Já eu, às palavras disse “Não”.

Em risco, agi de acordo com a minha consciência. E não me arrependo, graças a Deus!

 

 Paulo Vasco Pereira, Cinfães, 12/06/2010