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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Vivi mais quando a vida parou

   

O seguinte conto foi inspirado por esta questão que o Homem Sem Blogue propôs aos seus leitores:

"Vamos supor que existe um comando que permite pausar o mundo. Por outras palavras, o dono do comando tem a possibilidade de parar a rotação da Terra ao mesmo tempo que pode aproveitar esse momento para fazer o que quiser e com quem quiser. Sendo que cada pessoa só pode usar o comando uma vez. Se este comando estivesse nas tuas mãos... o que farias?"

 

___

 

O velho japonês, acompanhado pelo seu invulgar instrumento de cordas, está ali sentado de manhã à noite, todos os dias, todas as semanas, no canto da estação de metro. Sempre com um ligeiro sorriso e um olhar tranquilo. Como raio pode o homem aparentar tanta calma, num ambiente dominado por azáfama? Como lida tão bem com o desinteresse que a maioria lhe concede? O meu estômago deu aquele nó que já todos sentimos, em alguma ocasião. Ele merecia um palco. Merecia encher um auditório com a sua tranquila melodia, ao invés de ter como cenário um corredor desprovido de luz natural. Merecia uma remuneração decente ao fim do dia, porra!

 

Ajustei a gravata – o meu tique, antes de tomar uma decisão difícil – e fiz aquilo que adiara desde que a minha mãe me dera o aparelho. “Já tens 10 anos, Ricardinho. A mamã tem uma coisa muito importante para te dar, que todos os meninos recebem quando têm a tua idade.” E recebi o comando, tal e qual aquele pequeno e verde que abre o portão da minha casa, mas preto e com um pequeno visor.

 

Chegou o momento e carreguei no botão. Fi-lo pelo idoso japonês; pelo acordeonista que acumulara uns trocos e os perdera logo de seguida, ao tentar tirar uma sandes mista da máquina avariada; pela miúda da cafetaria, que timidamente distribuía os panfletos com o pedido de ajuda monetária para o tratamento do seu primo; pelo mendigo de olhar vazio.

 
E tudo parou. Fiquei rodeado de estátuas que, ainda há segundos atrás, tinham vida. Alguns ficaram com expressões faciais ridículas e não consegui conter o riso. E o puto que descia os degraus de dois em dois e ficou no ar, entre o penúltimo e o chão? Gostaria que vocês o conseguissem ver!

 
Mas depressa voltei ao meu objetivo. Olhei de novo para o comando, onde li 4.56. E agora 4.55.

 
O restante tempo foi passado em modo “Robin Hood”. Subi, a correr, a escada do metro e dirigi-me à Sacoor, à Zara, à Bertrand, à Giovanni Galli e, por fim, a uma loja de bijuteria cujo nome nem sei. Fui, portanto, aos estabelecimentos mais próximos da pastelaria e trouxe 20€ de cada um. Ainda saquei uns trocos e rapinei um casaco.


A caixa de donativos para o primo da rapariga (“Carla”, li agora no cartão que pende da sua blusa) ficou a conter mais 100€ do que anteriormente. 

 

1 minuto e 24 segundos. Senti o meu coração palpitar assertivamente, como se quisesse escapar do tórax. 

 

Os trocos caíram dentro da boina que jazia no chão. O acordeonista ganhou o lanche da mulher bem-parecida que pedira uma sandes mista, na pastelaria. O casaco foi colocado junto do sem-abrigo de barba branca.

 

2 segundos.

 

Senti-me inexplicavelmente cansado. Mirei a boina do japonês e fiquei surpreeendido com a quantidade de moedas que a recheava. Ia jurar que ainda há pouco estava quase vazia... Devo estar a precisar de uma boa noite de sono.

 

Vivências fictícias - conclusão

 

Uma das três mãos esteve dormente. Acredito que até o meu cérebro esteve dormente, com tantas preocupações que foram prioritárias, nos últimos tempos... Mas volto a este espaço acolhedor, tão bem mantido pelo Paulo, pelo José, por música, pelas peripécias do Arlindo e da Lídia e, claro, por vocês aí desse lado. Olá, novamente.

 

Depois das duas partes (aqui e aqui) do "Vivências fictícias", concluo agora as minhas aventuras imaginárias com a Cris, a Tânia e o Paulo. Mas antes vamos dar os parabéns à Tânia, que festeja hoje os seus jovens 36 anos!

 

 

Vivências fictícias III

 

Subíamos a escadaria – ou o que sobrava dela – com passos rápidos, na tentativa de chegar ao cimo antes de a noite cair sobre o Castelo de Hibrato. Tropecei num degrau e caí de joelhos, pelo que Paulo acendeu a lanterna.
Após pisarmos diversas pedras vestidas de musgo, chegámos finalmente ao topo.

 

castelo crepúsculo.jpg

 Fotografia de Cyril Helnwein


O nosso mais marcado receio era ouvir os famosos ruídos. Porém, só conseguíamos escutar os carros a passarem lá em baixo, junto à ponte.
- Vá, vamos lá entrar e despachar isto. – Tânia caminhou na direção do portão e nós espelhámos o seu movimento. Parámos logo de seguida, quando soou um ruído estridente.
Pequenas percussões, rápidas e repetidas, simultâneas a uma forte e súbita rajada de vento. Entreolhámo-nos e concordámos em silêncio: tentei empurrar o portão, que cedeu com alguma dificuldade. Com esforço, finalmente consegui arrastar o pesado pórtico e os nossos cabelos despentearam-se, enquanto os “ti ti ti” metálicos voltaram a ganhar intensidade.
O foco de luz da lanterna foi apontado para o interior da estrutura de pedra e seguíamos, com o olhar, as zonas serenamente iluminadas pelo Paulo. Primeiro, observámos a zona à esquerda. Vislumbrámos um arco, que unia duas colunas outrora majestosas. Ao centro, pudemos ver um lance das escadas para o piso superior. À direita… Brilho.
- Paulo, espera! O que é aquilo? – O desinteresse de Cris transfigurou-se numa inesperada curiosidade. Tânia também se aproximou e ficámos todos, armados em parvinhos, a olhar para aquilo. - Oh, não acredito. Os meus pais têm uma treta dessas no quintal! 

FIM

  

 

Julgamos que somos detentores da razão, mas os nossos pensamentos são, na verdade, incrivelmente limitados. Temos em conta apenas o que é visível, o que é audível, o que é compreensível atendendo ao nosso histórico de experiências. A simplicidade pode tornar-se complexa, se for inesperada. Um simples espanta-pássaros pode produzir medonhos ruídos que, noutro contexto, seriam banais.

Pensamos com palas.

 

Vivências fictícias - II

 

Continuação deste post.

 

Saímos do escritório, pouco depois das 17h. O crepúsculo apressado de Inverno tentava exibir tonalidades quentes, por entre as nuvens, e os nossos narizes pareciam espelhar o avermelhado do céu, devido ao frio que se apoderara daquele dia.

Apesar da aragem gelada, dirigíamo-nos para a margem esquerda do rio com o entusiasmo típico do fim de tarde de uma sexta-feira. Falara-lhes, à hora de almoço, acerca da visita que pretendia fazer ao castelo de Hibrato e acabámos por combinar um passeio até à zona das ruínas, seguido de um jantar de Natal.

- Malta, esperem um pouco! – Tânia entrou, apressada, no estabelecimento com a montra repleta de pequenas luzes e Paulo seguiu-a, após um breve olhar pensativo na direção do castelo.

Saíram pouco depois: ela com um grande sorriso, exibindo a sua nova agenda, e ele com uma lanterna na mão.

- Bem pensado, Paulo! – Cris, que gostava tanto do nosso plano como de um prato repleto de ervilhas, estava visivelmente mais aliviada com a aquisição do nosso amigo.

Atravessámos a ponte e observámos, por momentos, os inúmeros degraus - alguns já desnivelados e outros cobertos de musgo -, que esperavam os nossos passos.

  

O conto será finalizado no meu próximo post e continuará a contar com a participação da Cris, do Paulo e da Tânia!

 

O terço de Leonor

Talvez para adultos,

Nas entrelinhas, severas críticas à nossa sociedade.

 

Acabada de chegar, Leonor olhou para o altar da Igreja. Não o contemplou, tal era o seu sofrimento.

Da sua carteira, um terço destacou-se naquele lugar desprovido de cândidas sonoridades. De imediato, o apanhou do chão, agarrando-o com força, como se este fosse o seu único bem.

O calor trazia memórias e desejos adormecidos que acabava por reter na vasta imensidão das incertezas. Os raios de luz não só iluminavam os vitrais como avivavam também os filmes guardados nas mais diversas gavetas do cérebro de Leonor, ainda não organizadas e fechadas. Já havia, lá no meio do povo, naquela aldeia perdida entre rochas e campos verdejantes, quem louca a chamasse.

As suas mãos, calejadas, abriam fendas, a cada “Avé Maria”. Já os olhos, esses tinham perdido o brilho de outrora, encanto de tantos rapazes, junto à fonte do largo da sua pequena aldeia. Mas nem só o brilho do olhar se perdeu… A partida de um pedaço de si, quebrando a ordem natural da vida humana, travara as suas cordas vocais. O mundo deixara de o ser e as gentes perderam importância e significado.

A morte mantém-se uma incógnita para o ser humano. Todavia, como evitar a saudade? Como compreender que a sua filha, de apenas 18 anos, foi por ela ali encontrada , despojada de qualquer roupa, hirta, com um tom de pele tão estranho, fruto dos vários medicamentos que tomou e cujas caixas se encontravam, aleatoriamente, lançadas pelo chão do alpendre?
Uma morte ao Sol…

Sobre a mesa da cozinha, Rute Marlene deixou uma carta dirigida à mãe. Pouco se sabe sobre o conteúdo da mesma mas o essencial é óbvio: a Leonor atribuiu toda a responsabilidade dos seus atos.

- “A minha Rute Marlene diz ter nascido para ser famosa e viver um grande amor. Por isso, não a posso proibir de andar com aquele Sr. … Ai meu Deus, deixa-me benzer. Já estou a pecar!”- comentava com as comadres, sem qualquer malícia.
Todos pensavam tratar-se de uma daquelas paixões que passam como as aves migratórias que ninhos constroem junto ao telhado da sua casa. Na verdade, cedo se começaram a ouvir relatos deste e daquele sr. casado que disse o que afinal não disse, a respeito de terem encontrado Rute Marlene, então com 16 anos e meio, a fornicar frenéticamente, com Vicente, o novo homem lá da freguesia, dentro ou fora do carro, junto ao rio que um dia o sémen não levou.

Apertava o terço com maior força e devoção, com o decorrer do tempo que o seu pranto não levava, na tentativa de nele encontrar a salvação.
Ouviram-se passos na direção a Leonor.
Ela olhou: um homem louro, esbelto, com o charme dos 50 anos e que usava uma batina. Era Vicente – o padre da paróquia. Este, calmamente, aproximou-se daquela mãe e pausadamente disse-lhe, segredando ao ouvido:

- Por que sofres ou te castigas? A Rute Marlene estava grávida e quis poupar-te desse embaraço!
Segue a tua vida.
A tua filha não foi nem será a primeira.

Os passos de Vicente voltaram a adquirir ritmo e som, afastando-se, enquanto Leonor, paralisada pelo ódio e o choque das palavras, aquele terço aproximou do coração. Com maior devoção implorou a ajuda da Virgem Maria, acabando por partir a sua jóia que algum eco fez, no saltitar das peças, rumo a um ardente Vicente.
Ao olhar para trás, reparou que lá bem ao fundo, num canto escuro da Igreja, as mãos de Vicente percorriam as mamas de uma jovem que não conhecia, enquanto, em simultâneo, lhe beijava os mamilos.

Impávida, Leonor ausentou-se.
No povo, as suas palavras de nada adiantariam, não fosse ela mulher… Na porta lateral, ao olhar o céu, reparou na formação de trovoada. Ao longe, um forte e intenso relâmpago: a renovação?…

 

Guarda - dezembro de 2014

 

 

Paulo Vasco, em 23 de junho de 2014

Vivências fictícias

  

Aqui, no “A três mãos”, os meus dedos pressionam o teclado para escrever textos de ficção.

Aqui, a BB é uma mera narradora de histórias que passaram ao lado da História, uma simples comentadora de paisagens inexistentes e uma aldrabona relatadora de acontecimentos que não aconteceram.

Aqui, podem abstrair-se da realidade, por breves momentos, para se juntarem a nós nestas vivências fictícias.

Ontem (não) foi isto que pensei enquanto deixei o meu olhar perder-se para lá da janela da cozinha:

                                                                                              

          

A larga janela da sala, trespassada por quentes raios de Sol, permite-me avistar uma paisagem que nunca deixa de me surpreender. A erva seca, contrastante com o azul esverdeado da água do rio, deixa em evidência a construção medieval.

Não é imponente, mesmo em ruínas?

Como sempre, os meus pensamentos acabam na lenda do ferreiro endiabrado, quando me permito mirar este cenário durante algum tempo.

Conto-vos a lenda muito resumidamente: segundo consta, o castelo de Hibrato (que é aquele que vemos ali ao fundo, na outra margem do rio), foi o local da execução de Ludovico, o ferreiro mágico condenado por suspeita de ter transformado os ossos do rei Ernesto VI em ferro.

Alguns loucos defendem a veracidade desta lenda, afirmando que o esqueleto metálico deste rei continua preservado na ala norte do castelo. Porém, segundo eles, ninguém se atreve a procurá-lo, pois ouve-se um ruído semelhante ao som da percussão de dois metais sempre que alguém se aproxima da entrada das ruínas.

Outros desatinados arriscam-se a dizer que é o ferreiro quem assombra a fortaleza. Amanhã vou lá espreitar aquilo. Alguém se sente com coragem para vir comigo?

 

 

Ah, não vos avisei na introdução:

Aqui, vocês podem ser as personagens de um conto.