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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

Viver a vida!

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Detestava que marcassem reuniões quase em cima da hora. Geralmente tinha o seu trabalho todo planeado e uma reunião vinda do meio do nada… aborrecia-a olimpicamente.

Quando olhou o seu relógio de pulso percebeu que estava quase na hora e saiu do gabinete em passo apressado. Mas antes:

- Amélia vou para a reunião com a Administração. Anote os recados se fizer favor.

Um pedido desnecessário pois a secretária era muito eficiente e nada ficava por anotar. Preferiu as escadas ao elevador e num instante penetrou no andar de baixo onde se situava a enorme sala de reunião. A porta estava fechada, o que era costume e por isso bateu e acto contínuo abriu a porta. Lá dentro estavam quase todos os outros responsáveis dos diversos departamentos da empresa. Faltava unicamente o Director dos Recursos Humanos. Mas era usual chegar atrasado.

Assim que apareceu esbaforido apresentou as normais desculpas pelo atraso e ocupou a única cadeira vaga. No topo Alexandre Fialho responsável máximo da empresa em Portugal aguardava a chegada de todos os responsáveis. Era um homem já com alguma idade, muito alto, seco de carnes mas senhor duma voz firme e bem colocada. Havia quem dissesse que em tempos frequentara o Conservatório de teatro, mas nunca ninguém conseguira confirmar. Ergueu-se então do seu cadeirão e logo deu inicio à reunião:

- Bom dia. Como sabem a nossa sede em Londres está em profundas remodelações. Após a trágica morte do nosso Presidente Jeremy Bright, os seus herdeiros apresentaram novas propostas de trabalho. Propostas estas que nós já havíamos referenciado como essenciais para a nossa empresa. Deste modo passaremos, a partir início do próximo mês, a contar também com uma equipa de juristas.

Um burburinho encheu a sala mas logo foi silenciado pela voz do orador:

- A consultadoria que fornecemos aos nossos clientes apresenta por vezes algumas lacunas de âmbito jurídico. Dando assim exemplo às restantes filiais espalhadas pelo Mundo, foi superiormente decidido abrir a nossa casa a juristas… Deste modo contratámos um advogado sénior que constituiu, a nosso pedido, uma equipa com outros advogados mais jovens e que nos ajudarão no futuro.

Abandonando o seu lugar, o Administrador dirigiu-se a uma porta que dava directamente para o seu gabinete e abrindo-a deixou que o novo responsável e respectiva equipa entrasse na sala.

De novo na pose de orador anunciou:

- Meus senhores e minhas senhoras apresento-vos o Dr. Maurício Vilela e o Dr. Carlos Palhais, o Dr. Arlindo Neves e o Dr. Baltazar Cravo. Estes serão para já os nossos homens de leis. A partir do próximo mês farão parte da nossa casa.

Lídia deu um salto na cadeira e num gesto irreflectido levantou-se subitamente do lugar e preparou-se para sair da sala. Todavia foi impedida pela voz do Administrador:

- Dra. Lídia quer fazer o obséquio de me dizer onde vai? Que eu saiba a reunião ainda não terminou…

A Directora executiva da empresa corou e numa desculpa muito mal concebida só soube dizer:

-Tem razão senhor Doutor Alexandre, mas necessito urgentemente de sair… Explicar-lhe-ei mais tarde.

Não era costume aquela executiva sair assim das reuniões. Todavia condescendeu.

- Faça favor Doutora. Falaremos então mais tarde.

Fechou a porta atrás de si e naquela sua postura altiva, como era conhecida, procurou as escadas e subiu rapidamente ao seu gabinete onde se trancou.

Uma hora mais tarde saiu vestida como se fosse o fim do dia e disse a Amélia:

- Entregue esta carta ao Doutor Alexandre, se fizer favor!

Amélia assustou-se com a atitude da chefe e a medo perguntou:

- Onde… onde vai Doutora?

Um sorriso aflorou aos lábios rosados e bonitos de Lídia. Baixou-se para que ninguém a ouvisse e segredou à secretária:

- Vou finalmente viver…

 

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