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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

18 Dez, 2014

400 palavras - VI

A noite havia sido tórrida. Entre ambos uma miríade de beijos, carícias e desejos desvendados. Finalmente cansados, foi ela a primeira a falar.

- E se ninguém conseguisse mentir? – Perguntou naquela voz melosa de mulher apaixonada.

Ele olhou-a de soslaio e percebeu que a pergunta tinha outra intenção que apenas uma mera resposta dele. Ainda assim arriscou:

- Não haveria Pai Natal. Nem Natal. Nem prendas, nem subsídios (ups… mas isso já não há!!!). Não haveria política, nem políticos. Nem votos, nem eleitores… - ele parecia momentaneamente perdido e imparável na resposta.

-… Não haveria traição, nem tristeza. Nem palavras ocas, nem promessas vãs. Nem sorrisos disfarçados, nem alegrias desmedidas.

Ela ergueu-se do seu conforto e mesmo desnudada depositou nos lábios do amante um beijo e formulou uma nova questão:

- Acreditas que haja no mundo quem não minta?

Ele cruzou os braços por debaixo da cabeça e olhando o tecto alvo desabafou:

- Eu! Eu não minto. Posso eventualmente omitir mas não minto.

Ela insistiu:

- Mas se todos nós não conseguíssemos mentir? Apenas disséssemos a verdade?

Ele respirou fundo como estivesse a fazer um frete e devolveu:

- A vida era demasiado insossa para ser vivida. O que apimenta os dias é o risco de sermos levados a mentir.

- Mas ainda agora disseste que não mentias…

Apanhado na contradição esfarrapou uma má desculpa:

- Falava em termos da nossa sociedade, como está ora constituída… não apenas de mim, de ti… de nós!

- Sabes que mentir é muito feio?

- E a verdade magoa… especialmente para quem a ouve!

Ela voltou a deitar-se na cama sedosa e foi a sua vez de fixar o tecto. Por fim insistiu num tom pouco amistoso:

- É preferível viver numa mentira permanente… só porque a verdade dói?

Ele calou-se. A conversa toldara-se num tema pouco simpático. A noite fora quase perfeita… Um jantar saboroso, uma dança longa, aquelas primeiras carícias. Levantou-se de supetão da cama, nu e dirigiu-se à casa de banho. Regressou finalmente com a escova de dentes enfiada na boca e a espuma branca a fugir pelos cantos e a sucessiva acção da escova a bailar. Após a passageira irritação ela olhou com ternura e vaidade, o corpo musculado e esbelto do amante, sorriu interiormente e pensou:

- A este homem jamais será revelada a verdade, porque há-se sempre julgar sempre que lhe mentem! Ou será que não?

 

Continuação deste post.

 

Saímos do escritório, pouco depois das 17h. O crepúsculo apressado de Inverno tentava exibir tonalidades quentes, por entre as nuvens, e os nossos narizes pareciam espelhar o avermelhado do céu, devido ao frio que se apoderara daquele dia.

Apesar da aragem gelada, dirigíamo-nos para a margem esquerda do rio com o entusiasmo típico do fim de tarde de uma sexta-feira. Falara-lhes, à hora de almoço, acerca da visita que pretendia fazer ao castelo de Hibrato e acabámos por combinar um passeio até à zona das ruínas, seguido de um jantar de Natal.

- Malta, esperem um pouco! – Tânia entrou, apressada, no estabelecimento com a montra repleta de pequenas luzes e Paulo seguiu-a, após um breve olhar pensativo na direção do castelo.

Saíram pouco depois: ela com um grande sorriso, exibindo a sua nova agenda, e ele com uma lanterna na mão.

- Bem pensado, Paulo! – Cris, que gostava tanto do nosso plano como de um prato repleto de ervilhas, estava visivelmente mais aliviada com a aquisição do nosso amigo.

Atravessámos a ponte e observámos, por momentos, os inúmeros degraus - alguns já desnivelados e outros cobertos de musgo -, que esperavam os nossos passos.

  

O conto será finalizado no meu próximo post e continuará a contar com a participação da Cris, do Paulo e da Tânia!

 

15 Dez, 2014

400 palavras - V

O causídico lia o documento com invulgar atenção. De quando em vez rasgava o cabelo baço e lustroso com o dedo mindinho, sinal que algo não estava bem.

A cliente, jovem e bonita, sentada na sua frente a seu convite, seguia o vaivém do olhar com profunda expectativa. As folhas A4 eram passadas devagar e ainda assim o advogado voltava atrás para reler ou perceber alguma divergência.

Ao fim de um bom pedaço de incontável tempo, levantou os olhos dos papéis e recostando-se à enorme cadeira que acolhia o seu corpo balofo, declarou:

- Nem sei o que pensar disto… - e agitava o volume das folhas que acabara de ler.

A rapariga baixou os olhos, como que envergonhada, para a carpete de Arraiolos que atapetava o chão do gabinete e juntando todas as forças que sentia acabou por fazer a sacramental pergunta:

- Diga-me doutor… sinceramente… há algo que se possa fazer?

Habituado a mais de trinta anos de imensos contratos, o advogado percebeu que tinha ali um problema de difícil solução. Jamais na sua já longa carreira tivera entre mãos um acordo que abrangesse todas as hipóteses, mesmo a mais remota. Mas o contrato estava assinado por ambas as partes e era para cumprir.

Ergueu-se da cadeira e espreitou a rua através do estore semiaberto, como se procurasse uma solução, uma resposta assaz simples. Todavia jamais enjeitara um desafio, mesmo que existisse somente uma vã esperança de vitória. E aquele era mais que um desafio…

Contornou a enorme secretária e aproximando-se da jovem acenou com os papéis, ao mesmo tempo que questionava:

- Como foi capaz de assinar isto?

As lágrimas rolaram pela face bem maquilhada, deixando um rasgo profundo. Retirou da mala um lenço de papel com o qual tentou absorver o choro. Depois, foi respondendo:

- Não sei… creia-me que não sei!

Abanando a cabeça numa negação o advogado regressou à cadeira. Recostou-se e por fim lançou a proposta:

- Posso mostrar este documento ao meu colega de escritório? Pode ser que ele veja algo mais, que não descortinei…

- Não, não faça isso, por favor. A vergonha em estar aqui já é demasiado grande.

A velha raposa das barras suspirou, passou novamente as mãos pelo cabelo e atirou:

- A menina tem consciência do que assinou?

- Não doutor, não tenho.

Acordo na mão, o homem denunciou:

- Simplesmente fez um contrato com o Diabo!

13 Dez, 2014

400 palavras - IV

Chegou ao aeroporto um minuto depois da hora marcada. Ainda a viu ao longe, reconhecendo-a pelos longos cabelos negros. Chamou-a a plenos pulmões, recolhendo desta forma a atenção dos viajantes do aeroporto, mas ela, impávida e serena continuou a subir a rampa até desaparecer no meio de uma multidão de passageiros.

Ergueu-se da secretária e aproximou-se da frondosa janela onde a chuva batia com força, impelida por um vento que ganhava violência na bela mata de Monsanto. A auto-estrada estava repleta de viaturas paradas em ambos os sentidos.

- Algum acidente…

Vinte anos antes um outro acidente, também na auto-estrada, impedira-o de chegar a horas. E nem mesmo um taxista hábil e corajoso conseguiu fugir ao trânsito caótico.

Debruçou-se novamente sobre a secretária onde num diário escancarado, se podia ler em enormes letras:

“Empresária milionária residente na Austrália, regressa a Portugal”

A ilustrar a notícia uma enorme foto a cores. Observou uma vez mais a imagem e percebeu que Ana não havia envelhecido. As mesmas feições, o mesmo olhar e aquele sorriso…e que sorriso ela tinha!

A tarde plúmbea e invernosa pairava sobre a cidade. Abriu o correio electrónico mas a sua cabeça não estava ali. Vagueou instantaneamente para o aeroporto, onde abandonado se sentou no chão, encostou-se à mochila e enterrando a face nos braços cruzados, chorou em silêncio.

Tocou o telefone:

- Doutor Carlos!

- Sim Milene, diga!

- Está aqui uma paciente que tem urgência em ser vista pelo Doutor.

- Quem é?

- Não sei quem é. Não tem cá ficha. Que faço?

- Marque-lhe uma consulta para uma hora livre da semana que vem.

Desligou, levantou-se da secretária e foi ao casaco donde retirou a carteira. Abriu-a no local onde sabia que encontrava uma fotografia. Ele e ela, sorridentes em Barcelona junto da casa Millá. Uma recordação das primeiras férias juntos. E que férias…

Dois toques na porta e esta abriu-se de supetão:

- Carlos, desculpa entrar assim…

Ana continuava esbelta. Aqui e ali traços da idade, bem disfarçados por cargas de maquilhagem. Vestia um fato que lhe caía impecavelmente e brindara-se com alguma joalharia quiçá um tanto exagerada. Os olhos negros exibiam um misto de raiva e doçura.

Com esforço o médico tentou esconder a miríade de sentimentos que o assolavam naquele preciso instante. Por fim recompôs-se e perguntou, como se tivesse visto Ana no dia anterior:

- Agora já podes perder um minuto?

11 Dez, 2014

400 palavras - III

O velho Alexandre foi sempre o meu porto de abrigo para muitas, talvez demasiadas, tempestades. Fazia algum tempo que não o via. Procurei-o na sua velha casa junto ao mar. Estava um dia primaveril, com o sol a encher o dia de luz e alegria. Sabia-o ali, como sempre, de cachimbo gasto e apagado na boca e olhar permanentemente atento no horizonte, onde os dois azuis se juntavam.

- Olá velho Lobo do Mar!

- Olha o maltez! Hum aqui a esta hora! Há coisa…

Ele tinha esse singelo condão de me descobrir.

- Leia isto…

Sem mais entreguei-lhe uma folha onde estava escrito: antes fugir do que remediar.

- Que queres que eu te diga?

- Tenho de escrever sobre isso…

O velho pescador pegou no cachimbo sacudiu o fornilho como se estivesse aceso. Levou-o novamente à boca e respondeu:

- É fácil… Basta falares dos dias que vais vivendo.

- Como assim?

- Todos nós a determinada altura fugimos em vez de assumirmos as nossas desventuras.

Parou de falar e virando-se para mim. De cachimbo em riste, acusou-me:

- Lembras-te quando entravas no pomar do Florimundo para lhe roubares as peras?

- Se me lembro… - sorri ao relembrar as minhas patifarias de garoto.

- Pois é, quando ele aparecia fugias pela encosta… E não voltavas atrás para devolveres a fruta.

Acenei com a cabeça, concordando.

- Ora aí está um exemplo de vida. Quantos de nós assumimos todas as nossas falhas e todos os nossos erros? Ou quantas vezes regressamos à origem para remendar um erro?

- Quase nunca – assumi!

- Fugir torna-se mais fácil, sim! Porque o homem é assim mesmo … Foi educado para esquecer. E ao fugires estás a esquecer o passado.

- Mas eu não sou assim…

- Ai és, és! Todos nós somos!

Uma pausa.

- Por exemplo no mar…

E apontou a imensidão que se abria pela frente.

- O mar dá-nos muitas lições. Quantas vezes me fiz ao largo quando devia estar em terra? A verdade é que depois de lá entrar naquele mundo revolto e tempestuoso a única coisa que me salvava e aos meus homens era fugir dali o mais depressa possível.

- Entendo…

- Não entendes nada! Porque és novo e acreditas que podes mudar o mundo.

- Então sempre é melhor fugir do que remendar?

- Não sei… Pergunta à minha filha Maria, grávida de ti…

  

Aqui, no “A três mãos”, os meus dedos pressionam o teclado para escrever textos de ficção.

Aqui, a BB é uma mera narradora de histórias que passaram ao lado da História, uma simples comentadora de paisagens inexistentes e uma aldrabona relatadora de acontecimentos que não aconteceram.

Aqui, podem abstrair-se da realidade, por breves momentos, para se juntarem a nós nestas vivências fictícias.

Ontem (não) foi isto que pensei enquanto deixei o meu olhar perder-se para lá da janela da cozinha:

                                                                                              

          

A larga janela da sala, trespassada por quentes raios de Sol, permite-me avistar uma paisagem que nunca deixa de me surpreender. A erva seca, contrastante com o azul esverdeado da água do rio, deixa em evidência a construção medieval.

Não é imponente, mesmo em ruínas?

Como sempre, os meus pensamentos acabam na lenda do ferreiro endiabrado, quando me permito mirar este cenário durante algum tempo.

Conto-vos a lenda muito resumidamente: segundo consta, o castelo de Hibrato (que é aquele que vemos ali ao fundo, na outra margem do rio), foi o local da execução de Ludovico, o ferreiro mágico condenado por suspeita de ter transformado os ossos do rei Ernesto VI em ferro.

Alguns loucos defendem a veracidade desta lenda, afirmando que o esqueleto metálico deste rei continua preservado na ala norte do castelo. Porém, segundo eles, ninguém se atreve a procurá-lo, pois ouve-se um ruído semelhante ao som da percussão de dois metais sempre que alguém se aproxima da entrada das ruínas.

Outros desatinados arriscam-se a dizer que é o ferreiro quem assombra a fortaleza. Amanhã vou lá espreitar aquilo. Alguém se sente com coragem para vir comigo?

 

 

Ah, não vos avisei na introdução:

Aqui, vocês podem ser as personagens de um conto.