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A Três Mãos

A três mãos se escreve, a dois olhos se lê, a um o pensamento que perdura

400 palavras - VIII

Ajeitou a gravata quando pressentiu que a porta se preparava para ser aberta. Um homem corpulento, de tez pálida penetrou na sala estendendo a mão para a visita. Não obstante o aspecto volumoso parecia afável.

- Engenheiro Lídio Messias? Como está? – Cumprimentou.

Lídio retribuiu:

- Muito bem! Mas trate-me pelo meu nome, simplesmente.

O anfitrião sorriu com a franqueza e acrescentou:

- Claro. Faça o favor de se sentar.

E continuou:

- Veio responder ao anúncio?

- Exactamente!

- Como compreende há uma série de questões que gostaria de ver esclarecidas…

- Com todo o gosto!

O entrevistador recostou-se na cadeira e desbobinou um ror de perguntas. Ao fim de quase uma hora declarou:

- Creio que preenche todos os nossos requisitos. Sabe do negócio, tem ideias precisas do que necessitamos… Isso é muito bom! Já agora posso só colocar uma questão do foro mais pessoal?

- Obviamente…

- Quais são neste momento os seus sonhos, os seus desejos?

Resposta contínua:

- Não tenho sonhos…

- Como não?

- É como lhe disse… Não são os sonhos que me fazem mover.

- Então como chegou aqui? Como se licenciou?

- Desde cedo tive consciência que os sonhos só me atrapalhavam. Por isso abdiquei deles e apenas dei valor à lógica da vida.

Atrapalhado por aquela postura e entrevistador sentiu-se atemorizado. No entanto foi acrescentando:

- Nunca desejou um brinquedo, ter uma namorada, comprar um carro?

- Nunca! Sinto que só devo ter aquilo que posso. Os sonhos só acarretam desilusão, ansiedade e obviamente depressão. Sou pragmático e realista. O curso que frequentei não correspondeu a um desejo, mas a um estudo lógico pois rapidamente percebi que esta seria a profissão com maior empregabilidade.

- Mas acredite, que o melhor do sonho não está na conquista final… Apenas no caminho até lá!

- Acredito que assim seja. Mas prefiro não sonhar… Nem de noite!

- Se ninguém sonhasse viveríamos muito longe desta realidade. O sonho é que faz andar o mundo…

- Fez. Não faz mais! Hoje vivemos num mundo adepto de certezas e pragmatismos. Ninguém mais quer saber se o sonho comanda a vida… Sonhar com algo, como forma de vida, é somente uma mera utopia… ultrapassada.

- Nunca vi o mundo por esse prisma… sinceramente. E nessa sua filosofia onde cabe a felicidade?

A pergunta tinha rasteira. A resposta dada esquivou-se a ela:

- O que é a felicidade?

400 palavras - Especial de Natal

Vasco nascera no seio de uma daquelas famílias modernas onde tudo era assente numa lógica de verdade, sem subterfúgios nem desculpas.

Deste modo o petiz desde muito novo foi iniciado nas realidades humanas. A barriga da mãe crescia e quando perguntou porquê o pai explicou-lhe, numa linguagem incompreensível para a criança, todo o percurso da concepção de um filho. Mais tarde foi a mãe que teve de se empenhar em desmistificar a razão da avó Lurdes ir todos os domingos a uma casa enorme com muita gente. E a não existência de televisão em casa foi outro problema a ser resolvido.

A criança perdia todos os dias a magia da descoberta do mundo por ela própria. Tudo era desvendado sem segredos nem tabus.

Aos cinco anos Vasquinho já sabia ler e escrever e conhecia com competência quase todos os números. Uma vantagem em relação aos colegas da mesma classe, observava orgulhoso o pai, em véspera do começo da escola. Colégio privado claramente, pois não havia tempo a perder na aprendizagem.

No entanto certo dia o gaiato regressou a casa em silêncio. Em demasia, confirmava o pai. Está doente, diagnosticava a mãe, enquanto dava a papa à criança mais nova da família. Preocupados carregaram Vasco com demasiadas perguntas. Indefeso e triste Vasquinho acabou por revelar o seu drama:

- Os meninos lá da escola zangaram-se comigo…

- Porquê? O que fizeste? – perguntou o pai num tom preocupado.

- Eu não fiz nada. Só disse que o Pai Natal não existe!

- Pois não… - confirmou

- Mas eles não acreditaram em mim.

- Ora que importa isso… A verdade é que o tal de Pai Natal de encarnado vestido é uma invenção duma marca de bebidas.

- Eu sei papá, tu já tinhas dito isso.

- Ora. Porquê então ficares triste, quando sabes a verdade?

O menino nada disse. Mas os olhos enchiam-se lentamente de lágrimas. O pai olhou a mãe e encolheu os ombros sem saber o que dizer. Com doçura e meiguice aproximou-se mais do menino, pegou nele e sentou-o nas suas pernas. O filho encostou a cabeça ao peito do pai e começou a chorar. De mansinho, como se lavasse a sua alma tão nova mas já tão amargurada.

Quando parou olhou o pai e falou:

- Posso pedir uma coisa, papá?

- Claro Vasco. Diz lá o que queres…

- Papá deixa-me também acreditar no Pai Natal!

400 palavras - VII

A notícia penetrou-lhe na alma tal qual um murro na boca do estômago. A dor ficara presa dentro de si sem hipótese de sair. Um tormento!

Em toda a sua já longa vida habituara-se a lidar com o imprevisível e o inesperado. E acatara serenamente tudo o que o destino, ou fosse lá o que fosse que lhe chamassem, lhe reservara. Tudo… menos aquele momento.

Aceitara que a mãe tivesse abandonado o pai, trocando-o por um qualquer artista plástico de qualidade assaz duvidosa. Acatara com condescendência que a mulher se tornasse alcoólica por viver ociosa. Concordava que os filhos o deixassem só, fugindo certamente a uma mãe que jamais os soubera educar.

A sua vida resumia-se por isso ao dinheiro que ganhara e ao que com ele conseguira adquirir. Não tinha amigos verdadeiros, nem familiares próximos que o amparassem. Estava só no mundo. Mas esta solidão não o magoava.

Uma singela lágrima tremeu nos olhos, teimando em correr pela cara bem escanhoada. Passou as costas da mão pela face e limpou o sal humano.

Tanta raiva contida, quantos desejos adiados, tantas palavras silenciadas… para nada! Restava a pergunta: valera a pena?

Nem pensou em responder.

Em passo lento entrou no escritório, onde prateleiras com milhares de livros que nunca lera, forravam as paredes. Em cima da secretária uma moldura que ele pegou e virando-a para si reparou nos seus três filhos ainda pequenos. Lembrava-se tão bem daquele dia na sua casa da praia com os descendentes no areal e a mulher na cama a curar mais uma das muitas e usuais bebedeiras.

Sentou-se num velho “fauteil”, herança de um avô belga, encostou a cabeça ao braço e ficou ali estático a contorcer-se com aquela dor que se embrenhara na alma. Algo dilacerante que o queimava por dentro.

Algures na imensa casa silenciosa e fria tocou um relógio. E depois outro. Deixou que o tempo passasse lentamente e tentou simplesmente não pensar. Pela primeira vez em muitos anos desligara o telemóvel. Queria estar em silêncio, carpir somente a mágoa que o consumia.

Olhou então para o pequeno móvel que ladeava a poltrona herdada, onde um candeeiro de loiça irradiava uma luz quente e amarela. Ao lado do pequeno lustre mais fotografias e claro está mais recordações.

Serenamente abriu a porta do pequeno móvel, meteu a mão dentro como se tivesse a certeza do que ia encontrar e finalmente retirou a pistola.

400 palavras - VI

A noite havia sido tórrida. Entre ambos uma miríade de beijos, carícias e desejos desvendados. Finalmente cansados, foi ela a primeira a falar.

- E se ninguém conseguisse mentir? – Perguntou naquela voz melosa de mulher apaixonada.

Ele olhou-a de soslaio e percebeu que a pergunta tinha outra intenção que apenas uma mera resposta dele. Ainda assim arriscou:

- Não haveria Pai Natal. Nem Natal. Nem prendas, nem subsídios (ups… mas isso já não há!!!). Não haveria política, nem políticos. Nem votos, nem eleitores… - ele parecia momentaneamente perdido e imparável na resposta.

-… Não haveria traição, nem tristeza. Nem palavras ocas, nem promessas vãs. Nem sorrisos disfarçados, nem alegrias desmedidas.

Ela ergueu-se do seu conforto e mesmo desnudada depositou nos lábios do amante um beijo e formulou uma nova questão:

- Acreditas que haja no mundo quem não minta?

Ele cruzou os braços por debaixo da cabeça e olhando o tecto alvo desabafou:

- Eu! Eu não minto. Posso eventualmente omitir mas não minto.

Ela insistiu:

- Mas se todos nós não conseguíssemos mentir? Apenas disséssemos a verdade?

Ele respirou fundo como estivesse a fazer um frete e devolveu:

- A vida era demasiado insossa para ser vivida. O que apimenta os dias é o risco de sermos levados a mentir.

- Mas ainda agora disseste que não mentias…

Apanhado na contradição esfarrapou uma má desculpa:

- Falava em termos da nossa sociedade, como está ora constituída… não apenas de mim, de ti… de nós!

- Sabes que mentir é muito feio?

- E a verdade magoa… especialmente para quem a ouve!

Ela voltou a deitar-se na cama sedosa e foi a sua vez de fixar o tecto. Por fim insistiu num tom pouco amistoso:

- É preferível viver numa mentira permanente… só porque a verdade dói?

Ele calou-se. A conversa toldara-se num tema pouco simpático. A noite fora quase perfeita… Um jantar saboroso, uma dança longa, aquelas primeiras carícias. Levantou-se de supetão da cama, nu e dirigiu-se à casa de banho. Regressou finalmente com a escova de dentes enfiada na boca e a espuma branca a fugir pelos cantos e a sucessiva acção da escova a bailar. Após a passageira irritação ela olhou com ternura e vaidade, o corpo musculado e esbelto do amante, sorriu interiormente e pensou:

- A este homem jamais será revelada a verdade, porque há-se sempre julgar sempre que lhe mentem! Ou será que não?

400 palavras - V

O causídico lia o documento com invulgar atenção. De quando em vez rasgava o cabelo baço e lustroso com o dedo mindinho, sinal que algo não estava bem.

A cliente, jovem e bonita, sentada na sua frente a seu convite, seguia o vaivém do olhar com profunda expectativa. As folhas A4 eram passadas devagar e ainda assim o advogado voltava atrás para reler ou perceber alguma divergência.

Ao fim de um bom pedaço de incontável tempo, levantou os olhos dos papéis e recostando-se à enorme cadeira que acolhia o seu corpo balofo, declarou:

- Nem sei o que pensar disto… - e agitava o volume das folhas que acabara de ler.

A rapariga baixou os olhos, como que envergonhada, para a carpete de Arraiolos que atapetava o chão do gabinete e juntando todas as forças que sentia acabou por fazer a sacramental pergunta:

- Diga-me doutor… sinceramente… há algo que se possa fazer?

Habituado a mais de trinta anos de imensos contratos, o advogado percebeu que tinha ali um problema de difícil solução. Jamais na sua já longa carreira tivera entre mãos um acordo que abrangesse todas as hipóteses, mesmo a mais remota. Mas o contrato estava assinado por ambas as partes e era para cumprir.

Ergueu-se da cadeira e espreitou a rua através do estore semiaberto, como se procurasse uma solução, uma resposta assaz simples. Todavia jamais enjeitara um desafio, mesmo que existisse somente uma vã esperança de vitória. E aquele era mais que um desafio…

Contornou a enorme secretária e aproximando-se da jovem acenou com os papéis, ao mesmo tempo que questionava:

- Como foi capaz de assinar isto?

As lágrimas rolaram pela face bem maquilhada, deixando um rasgo profundo. Retirou da mala um lenço de papel com o qual tentou absorver o choro. Depois, foi respondendo:

- Não sei… creia-me que não sei!

Abanando a cabeça numa negação o advogado regressou à cadeira. Recostou-se e por fim lançou a proposta:

- Posso mostrar este documento ao meu colega de escritório? Pode ser que ele veja algo mais, que não descortinei…

- Não, não faça isso, por favor. A vergonha em estar aqui já é demasiado grande.

A velha raposa das barras suspirou, passou novamente as mãos pelo cabelo e atirou:

- A menina tem consciência do que assinou?

- Não doutor, não tenho.

Acordo na mão, o homem denunciou:

- Simplesmente fez um contrato com o Diabo!

400 palavras - IV

Chegou ao aeroporto um minuto depois da hora marcada. Ainda a viu ao longe, reconhecendo-a pelos longos cabelos negros. Chamou-a a plenos pulmões, recolhendo desta forma a atenção dos viajantes do aeroporto, mas ela, impávida e serena continuou a subir a rampa até desaparecer no meio de uma multidão de passageiros.

Ergueu-se da secretária e aproximou-se da frondosa janela onde a chuva batia com força, impelida por um vento que ganhava violência na bela mata de Monsanto. A auto-estrada estava repleta de viaturas paradas em ambos os sentidos.

- Algum acidente…

Vinte anos antes um outro acidente, também na auto-estrada, impedira-o de chegar a horas. E nem mesmo um taxista hábil e corajoso conseguiu fugir ao trânsito caótico.

Debruçou-se novamente sobre a secretária onde num diário escancarado, se podia ler em enormes letras:

“Empresária milionária residente na Austrália, regressa a Portugal”

A ilustrar a notícia uma enorme foto a cores. Observou uma vez mais a imagem e percebeu que Ana não havia envelhecido. As mesmas feições, o mesmo olhar e aquele sorriso…e que sorriso ela tinha!

A tarde plúmbea e invernosa pairava sobre a cidade. Abriu o correio electrónico mas a sua cabeça não estava ali. Vagueou instantaneamente para o aeroporto, onde abandonado se sentou no chão, encostou-se à mochila e enterrando a face nos braços cruzados, chorou em silêncio.

Tocou o telefone:

- Doutor Carlos!

- Sim Milene, diga!

- Está aqui uma paciente que tem urgência em ser vista pelo Doutor.

- Quem é?

- Não sei quem é. Não tem cá ficha. Que faço?

- Marque-lhe uma consulta para uma hora livre da semana que vem.

Desligou, levantou-se da secretária e foi ao casaco donde retirou a carteira. Abriu-a no local onde sabia que encontrava uma fotografia. Ele e ela, sorridentes em Barcelona junto da casa Millá. Uma recordação das primeiras férias juntos. E que férias…

Dois toques na porta e esta abriu-se de supetão:

- Carlos, desculpa entrar assim…

Ana continuava esbelta. Aqui e ali traços da idade, bem disfarçados por cargas de maquilhagem. Vestia um fato que lhe caía impecavelmente e brindara-se com alguma joalharia quiçá um tanto exagerada. Os olhos negros exibiam um misto de raiva e doçura.

Com esforço o médico tentou esconder a miríade de sentimentos que o assolavam naquele preciso instante. Por fim recompôs-se e perguntou, como se tivesse visto Ana no dia anterior:

- Agora já podes perder um minuto?